Rio São Francisco

 

Outro dia assistir pela televisão a uma reportagem jornalística dando conta de que o velho Chico está morrendo. E para demonstrá-lo, o jornalista vadeou o rio, com água pelos joelhos, num trecho próximo à cidade de Xique-Xique. Em seguida, foram mostrados, a partir das vertentes, trechos a perder de vista, todos nus, devastados, nem relva havia mais.

 

Lembrei-me apenas de longínquos dias, meados da década de cinquenta, quando triste e medrosamente naveguei o rio, seguindo a rota do êxodo rural traçada pela lógica implacável da acumulação capitalista no sudeste brasileiro. Tinha, então, quinze anos incompletos, e como Raul Pompéia, à porta do Ateneu, ia também descobrir o mundo.

 

Poucos anos depois, tomei conhecimento que o velho Chico era conhecido como o rio da integração nacional. Era no meu tempo a principal rota que ligava o Nordeste, e mais exatamente o semiárido, o polígono das secas, às regiões Sul e Sudeste do País. Era o caminho das águas. Não havia Brasília e seu papel de integração nacional; indústria automobilista e rodovias vieram depois, e infelizmente ao custo da extinção da navegação fluvial, da restrição à navegação costeira e do abandono das ferrovias, enfim, opção política da classe dominante, que nós, o proletariado, lamentamos profundamente.

 

Li, então, que o velho Chico deve seu nome a Américo Vespúcio que integrou à expedição exploradora de Gaspar Lemos, em 1501, com a finalidade de reconhecer e batizar os acidentes geográficos, dando-lhes nomes de santos ou de festividades religiosas do dia. A foz do velho Chico foi avistada no dia de S. Francisco de Assis, o santo dos pobres, humilhados e ofendidos.

 

Características do S. Francisco: O rio S. Francisco é o único grande rio genuinamente brasileiro. Nasce em pequena área relvada, a mil metros de altitude, na serra da Canastra,  MG (Lat. S. 20o17’25.10” e Long. O. 46o33’41.10”), a 30 km da cidade de Delfinópolis. É um rio de  planalto, correndo inicialmente no sentido Sul-Norte, até um ponto (Lat. S. 15o58’50.2” e Long. O. 45o02’11.1”) próximo à cidade de S. Francisco, ainda no Estado mineiro, quando muda de direção para NE, rumo à Bahia até o cotovelo do S. Francisco, na divisa com o Estado de Pernambuco (Lat. S. 8o 31’38.3” e Long. O. 39o23’53.9”). A partir daí, curva-se para Sudeste, separando os Estados de Alagoas e Sergipe, para desaguar finalmente no Atlântico, após percorrer 3.160 km.

 

O trecho inicial mineiro apresenta corredeiras, cachoeiras, como a “Casca d’Anta”, com 200 m de altura, e saltos como o de Pirapora, próximo à cidade de mesmo nome. A partir desta cidade, inicia-se o trecho médio do rio, com extensão de 1300 km, e altitude entre 480 e 370 metros. Era, no meu tempo de adolescente, o trecho navegável do rio: de Pirapora, MG (Lat. S. 17o21’02”.0 e Long. O. 44o56’03”.9) até Juazeiro, BA (Lat. S. 9o24’56.7” e Long. O. 40o30’06.2”) e Petrolina, PE, estas duas últimas cidades ligadas por uma ponte fluvial.

 

A partir de Juazeiro, inicia-se um longo trecho em declive formando quedas-d’água como as de Paulo Afonso (80 m) e Itaparica, transição do planalto para a planície costeira, o baixo curso, último trecho do rio.

 

O regime hidrográfico da bacia sanfranciscana, que compreende área de 631,1 mil km2, é pluvial, seus principais afluentes são: Carinhanha, Pardo, Grande e Velhas; outros são  temporários: rios Rãs, Paramirim e Jacaré.

 

Para regularizar o débito fluvial no curso médio do rio, o trecho mais árido do S. Francisco, construiu-se a barragem de Sobradinho, entre as cidades de Barra e Juazeiro, uma extensão longitudinal, considerados os meandros do curso d’água, de 400 km, e largura média de 8 km, atingindo em seu ponto mais largo, cerca de 30 km. Quando formada, era o maior reservatório do Brasil, comportando cerca de 34Gm3 de água, volume reduzido, em dez/2003, a 14% de sua capacidade.

 

O S. Francisco, embora ferido de morte, continua magnânimo como sempre, doando energia para o Sudeste, a partir de sua hidrelétrica de Três Marias, no alto curso do rio, no Estado de Minas Gerais, enquanto suas demais usinas (Sobradinho, Paulo Afonso, Itaparica e Xingó) abastecem a região NE. E possivelmente sangrará ainda mais com a transposição de 1,5 bilhão de metros cúbicos anuais (75% do volume d’água da baia  da Guanabara), a partir do curso inferior do rio, nos Estados de BA, PE, AL e SE. A água seria levada por meio de canais de irrigação para o semiárido do CE, RN, PB e PE. Fala-se inclusive em desviar água do rio do Sono (TO), conectando as nascentes dos rios Sono  e  Sapão (BA), afluente do rio Preto (BA) que é, por sua vez, subafluente do S. Francisco. O Preto é um rio de águas cristalinas que banha a minha pequenina Formosa do Rio Preto.

 

O Polígono das Secas: O polígono das secas, com área de 936,9 milhares de km2, se estende por 9 Estados brasileiros. A seguir, os percentuais do território de cada Estado compreendido nessa região. Estados da bacia Sanfranciscana: MG (9,77%); BA (56,75%); PE (88,79%); AL (44,09%); SE (47,33%). Demais Estados do NE: CE (93,70%); PI (82,38%); RN (90,49%); PB (97,83%).

 

Há evidências de mudança climática no Nordeste brasileiro, entre os anos 12mil e 8mil antes de Cristo. Aparentemente, uma parte da floresta equatorial se estendia até o Piauí, e a floresta tropical cobria o que é hoje o semiárido.

 

A aridez do sertão nordestino se deve aparentemente à conformação do relevo litorânea do NE. Relevo alto no litoral, declinando progressivamente para o interior até formar a depressão do vale do S.Francisco,  no imenso sertão nordestino.

 

O alto relevo litorâneo barraria, em parte, a passagem da massa tropical atlântica, portanto chuvoso na Zona da Mata, bem como úmido e repleto de brejos o Agreste. A massa tropical atlântica ao atingir o sertão estaria com pouca umidade, daí o baixo índice de precipitação pluviométrica na região (200 a 700 mm anuais). O EL Ninho só acentuaria o fenômeno climático, podendo contribuir, em alguns anos, para a penetração da massa equatorial atlântica ao norte da região NE, com chuvas abundantes ou, ao contrário, inibir a dinamização da massa tropical atlântica, prolongando a estiagem na região.

 

As sub-regiões, a partir do litoral, seriam as seguintes: Zona da Mata, estendendo-se do RN até a BA, com largura, em torno de 200 km. Agreste: região de transição entre a zona da mata e o Sertão, com extensão e largura semelhante à zona da mata. E, por fim, o Sertão propriamente dito. Deixo de citar o Meio-Norte, região de transição entre o sertão e a  Amazônia, a partir do Maranhão.

 

Em função do clima chuvoso do litoral nordestino, os interesses capitalistas acabaram por devastar a mata atlântica, transformando-a num imenso canavial e algumas plantações de cacau e fumo. O Agreste, outrora região de policultura, de agricultura de subsistência e pecuária extensiva, aos poucos foi sendo invadida pelos interesses canavieiros. O que foram as ligas camponesas senão a luta de pequenos agricultores contra os usineiros?!

 

Flora e Fauna e Agricultura do semiárido: O clima do Sertão é semiárido, com temperaturas médias anuais entre 25º C e 29o C, e os solos são rasos, arenosos e pedregosos. O Sertão é a área das caatingas (matas brancas), vegetações arbustiva e herbácea. Outrora, havia alguma vegetação arbórea ao longo dos rios, as chamadas matas ciliares, hoje extintas no rio S. Francisco. Entre as espécies arbóreas  mais comuns da região estavam a amburana, o umbuzeiro, a maniçoba, o ipê, o jatobá, a canjerana, o angico, o cedro etc., extintos pelas indústrias madeireira e carvoeira. Devido à baixa umidade, algumas plantas do semiárido transformam suas folhas em acúleos, para não perderem umidade pela transpiração, a exemplo das cactáceas como o mandacaru. Nas áreas mais secas, formações arbustivas, juremas em profusão.

 

A caatinga abrigava 40 espécies de lagartos, 45 de serpentes, 4 de quelônios, 44 de anfíbios e diversos mamíferos, estes cada vez mais raros: veados, cutias, gambás, raposas,  macacos, tatus, pacas e capivaras etc.

 

A atividade do sertanejo típico ainda está ligada à produção agrícola de pequena escala e ao pastoreio extensivo, mas em algumas áreas irrigadas, já aparece a agricultura comercial voltada para os produtos soja, café, frutas e hortaliças. O semiárido não é tão uniforme como pensamos, há domínios vegetais diversificados, como a mata dos cocais, ao norte da região, zonas de cerrados, e a caatinga propriamente dita.

 

A população (cerca de 20 milhões) vive em sua maioria nos vales do S. Francisco e Cariri. Às margens do S. Francisco estão inúmeras cidades, sendo as mais conhecidas, da foz para a nascente: Penedo AL (55 mil hab.), Propriá-SE (25 mil hab.), Paulo Afonso-BA (90 mil hab.), Petrolina-PE (219 mil hab.), Juazeiro-BA (175 mil hab.), Sento-Sé-BA (30 mil hab.), Xique-Xique-BA (40 mil hab.), Barra-BA (40 mil hab.), Ibotirama-BA (25 mil hab.), Bom Jesus da Lapa-BA (50 mil hab.), Carinhanha-BA (25 mil hab.), Manga-MG (50 mil hab.), Januária-MG (90 mil hab.) e Pirapora-MG (50 mil hab.).              

 

Lembranças Ribeirinhas: Ao  concentrar-se  ao  longo  do rio, a  população ribeirinha desenvolveu cultura  peculiar. Lembro-me do mito do  nego-d’água que assustava os barqueiros do rio, daí as carrancas na proa das barcaças para afugentá-lo; do fervor religioso das romarias na cidade do Bom Jesus da Lapa, centro de peregrinação da população ribeirinha. Lá, em uma gruta ou lapa teria sido encontrada uma escultura ou imagem milagrosa do bom Jesus. Lembro-me com tristeza da extensa fila de mendigos ao longo das ruas daquela cidade; outras lembranças mais agradáveis, as ladainhas, os folguedos, as festas juninas. Lembro-me finalmente das margens do rio cobertas de árvores, as famosas matas-galeria; dos patos e marrecas que nadavam no rio, dos jacarés... e das pescarias.

 

Lembro-me ainda o nome do vapor, no qual subi o rio, em marco de 1955, era  Custódio de Melo; do café da manhã, das bolachas de água e sal  com manteiga Aviação; bolachas que chamávamos de sete capas, pois elas descascavam-se facilmente; das grandes latas de leite em pó... Enfim, dos 840 km percorridos, de Barra-BA a Pirapora-MG, no conforto de uma cabine da lendária embarcação. Em Pirapora, faria  baldeação em trem-de-ferro, maria-fumaça, para Belo Horizonte e, de lá, novamente em trem-de-ferro, para S.Paulo. Hoje, ao saber que o rio está morrendo, esforço-me para entender a lógica da ocupação capitalista na região.

 

Barbárie e Destruição ou Tomada de Consciência Ecológica: Certa vez ao conversar com um amigo, ele me disse que a humanidade teria de escolher entre a barbárie e o socialismo. Hoje, ao que parece, diria: com sorte ficaremos na barbárie, pois os sinais de destruição da humanidade são bem visíveis. Nenhuma sociedade tecnológica sobreviveria ao seu próprio desenvolvimento.

 

A questão colocada remete, então, à lógica de reprodução das relações sociais capitalistas. Teríamos que voltar aos clássicos para entendê-la. Marx, otimista como sempre, dizia que o modo de produção capitalista seria apenas mais um modo transitório de produção, como foram os anteriores (escravismo, feudalismo, manufatura, capitalismo), todos baseados na exploração do homem pelo homem. Esses modos de produção representariam ainda uma fase de pouco desenvolvimento do homem, a pré-história da humanidade. A verdadeira História começaria com o socialismo, onde os homens teriam as mesmas oportunidades de conhecer e exercitar todos os potenciais de que são capazes. E diria mais: a História não coloca para si problema que não possa ser resolvido.

 

Fiz muitas perguntas, na minha adolescência, quando vim para S. Paulo: Por que a dupla fila de mendigos ao longo das ruas da Lapa do Bom Jesus? Por que existem pobres? Por que um adolescente de 15 anos incompletos teria de emigrar para descobrir o mundo?

 

Levei anos para entender a lógica capitalista e os interesses de uma classe dominante, arrogante e cruel. Entendi que o capitalismo se desenvolve desigualmente. Ele se concentra, inicialmente, em um polo geográfico qualquer, e reorganiza o espaço social da nação, em função dos interesses de uma classe dominante.

 

No Brasil, o centro hegemônico situou-se em S. Paulo, expandindo-se lentamente pela região Sudeste. Para as demais regiões do País, a classe dominante de S. Paulo reservou as funções de suprimento de mão de obra, matérias-primas e insumos abundantes e baratos. Ao mesmo tempo, S. Paulo forneceria os produtos industrializados, de maior valor agregado, gerando, por um lado, déficit crescente nas relações de troca, em prejuízo das demais regiões do País; e, por outro, instituindo o mercado cativo e impondo a dependência econômica daquelas regiões ao centro hegemônico. Estava fundada, assim, uma divisão do trabalho entre as diferentes regiões do País. Em outras palavras, o SE exerceria a mesma função imperialista que os Estados Unidos vêm impondo ao mundo.  

 

Mais tarde, à medida que cresceu a acumulação capitalista, a classe dominante se fortaleceu e começou a  expandir seus negócios para o interior do País. O capitalismo por sua própria natureza é predatório; sua única finalidade é o lucro, e toda despesa ligada à preservação, à restauração e à conservação do ambiente é tida por ele como custo, e o custo tende a eliminar o capitalista do mercado. O capitalismo, como sabemos, é anárquico, prevalecem as forças do mercado, a competição, a luta e o abuso econômico.

 

No socialismo, o planejamento é centralizado, e as reformas são implementadas sem antagonismo. Os meios de produção (fábricas, usinas, estabelecimentos agrícolas, transporte, comunicação etc.)  são coletivos, não pertencem a uma classe dominante. No socialismo, eu não teria emigrado aos 15 anos de idade, pois lá, na minha pequenina Formosa, teria, certamente, a escola, e os meios de produção necessários à subsistência que busquei, em vão, perambulando pelo Sudeste. O êxodo rural não só vitimou a mim, mas aos amigos de infância que sumiram no mundo. A violência capitalista do êxodo rural somente é  igual à depredação que fizeram e continuam fazendo com o rio S. Francisco, um rio de doces recordações.

 

Recuperação Possível: A Natureza levaria mil anos para restaurar o vale do S. Francisco, devolver-lhe a beleza perdida, mas os homens poderiam fazê-lo em 20 anos, gastando em torno de R$ 20 bilhões. As medidas começariam por repor a cobertura vegetal, principalmente junto às nascentes; tratar os esgotos que correm para ele; garantir um conteúdo filosófico na educação, voltado para uma compreensão holística do meio ambiente, e não só para os ribeirinhos, mas para todos os brasileiros.

 

Eu, ao contrário do narrador proustiano, não estou em busca do tempo perdido, mas do espaço geográfico que um dia conheci; aquele pôde ser evocado pela memória da personagem, lembrança de uma sensação esquecida e a tentativa de reunir passado e presente numa mesma atmosfera ideal; este, o espaço geográfico, pode e deve ser recuperado para que possamos unir passado e presente numa mesma atmosfera real.  

 

solonsantos@yahoo.com.br – notassocialistas.com.br - ligeiros comentários, a partir de consulta à Enciclopédia Larousse, ao Almanaque Abril, ao Sites da Eletrobrás, do IBGE, aos livros didáticos de História e Geografia, ao GPS Garmin etc. - nov/2003.