RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL
Entendemos por responsabilidade social empresarial a situação de uma empresa que obedece e cumpre os dispositivos legais do país onde está estabelecida, e que pratique atos conscientes em relação à sociedade na qual é parte integrante. Veremos mais adiante que a empresa não só é parte integrante de uma sociedade, mas seu fundamento econômico, à medida que se apresenta como uma unidade de produção de bens e serviços.
A responsabilidade social empresarial pode se expressar como dever ou como ato de compromisso volitivo e consciente. Uma empresa que contrata trabalhadores sem registro em carteira falta com seu dever social, pois contraria dispositivo legal da nossa CLT. Sabemos que muitas empresas instaladas no Brasil praticam esse tipo de ato ilegal. Segundo dados oficiais, (MTB) apenas 40% dos trabalhadores têm registro em carteira.
Admitindo, por hipótese, que cerca de 30% dos trabalhadores esteja no mercado informal, isto é, tidos como autônomos (na realidade, desempregados estruturais), e mais 10% de desempregados a procura de trabalho, restaria ainda 20% deles que estariam trabalhando sem registro em carteira.
Há, ainda, outros tipos de ilegalidade que podem ser considerados como não cumprimento do dever social de uma empresa. Citamos, por exemplo, a falsificação de marcas industriais; de medicamentos e outros produtos; o contrabando de mercadorias; a sonegação fiscal etc.
A responsabilidade social empresarial deve ser entendida como um compromisso da empresa, não só em relação ao seu público alvo, mas, sobretudo, com o meio-ambiente e com seus trabalhadores. Compromisso expresso em sua política empresarial, desenvolvida e praticada ao longo de sua história: respeito aos trabalhadores, ao meio-ambiente, e aos consumidores, na forma da qualidade e certificação de seus produtos e serviços.
Uma empresa que cuida de uma praça, de uma creche ou que patrocina uma instituição cultural ou de lazer, recebendo em troca subsídios ou isenção fiscal, está apenas prestando um serviço remunerado, como se fosse um trabalho terceirizado disfarçado e contratado pela Poder Público, e, nestes casos, a responsabilidade social empresarial se reduz a uma mera troca mercantil.
A grande questão é: por que uma empresa não pratica responsabilidade social? Os empresários são conscientes de seus atos? Há interesses que se opõem às suas responsabilidades sociais?
Dissemos, no início deste trabalho, que a empresa não só é uma unidade produtiva de bens e serviços, mas um dos fundamentos da sociedade. Logo, devemos procurar no sistema social mais amplo a lógica de produção e reprodução ampliada do capital, o móvel de toda empresa capitalista. Nenhum fenômeno será compreensível quando considerado isoladamente, desligado dos demais fenômenos que o cerca. De igual maneira, uma ação social empresarial afirmativa ou negativa somente será compreensível quando contextualizada, quando vista em seu processo de interação com o todo social da qual é parte integrante.
Como sabemos, a principal lei do capitalismo em sua última etapa de desenvolvimento é a busca do lucro máximo. Para alcançar este objetivo, as empresas tiveram que se reestruturar e, ao mesmo tempo, reestruturar o mundo do trabalho, como, aliás, já vem ocorrendo com a globalização dos mercados.
Outra característica da luta pelo lucro máximo diz respeito às intervenções de algumas nações imperialistas em países produtores de matérias-primas estratégicas e insumos energéticos. Essas intervenções buscam garantir o acesso de suas empresas às fontes de recursos primários, vitais para a manutenção dos elevados padrões de vida de seus povos.
Quanto às modificações do mundo do trabalho, temos de considerar, em primeiro lugar, a reestruturação produtiva do capitalismo, (1) que teve inicio a partir dos anos oitenta. Vejamos como esse fenômeno modificou as relações do mundo do trabalho. Analisemos essas modificações ao nível interno das empresas e suas conexões com o mercado global.
A partir dos anos oitenta, o capitalismo iniciou um processo de reestruturação produtiva, baseado na intensificação do uso de novas tecnologias aplicadas à produção de bens e serviços e na reorganização do trabalho junto às unidades de produção. Tais medidas tiveram repercussão significativa para o mundo do trabalho.
Quanto à organização do trabalho propriamente dito, podemos estudá-la em dois níveis: a) organização interna em único local de trabalho; b) organização do trabalho fragmentado em unidades de produção separadas e, muitas vezes, localizadas em diferentes países.
No primeiro nível, podemos citar: supressão de várias instâncias de gerência; unificação de tarefas; extinção de linhas de produtos de inexpressiva participação percentual na produção total da empresa; supressão de estoques, de armazenagem, substituídos por uma relação direta com fornecedores e sob contrato por encomenda de peças, insumos e componentes; terceirização de algumas funções produtivas e de serviços em geral; criação do banco de horas; contrato por tempo determinado; estabelecimento de novas técnicas de cooptação dos trabalhadores, como, por exemplo, a participação nos lucros ou resultados da empresa, desde que cumprida as metas estabelecidas de produção. Esta técnica de cooptação cria, inclusive, a ilusão de parceria entre empregados e patrões, além de incentivar a competição entre os próprios trabalhadores, à medida que visa alcançar as metas de produção, estabelecidas pela Direção empresarial.
No segundo nível, notamos a fragmentação da produção em unidades fabris separadas, localizadas inclusive em diferentes países. Neste caso, o capitalista busca vantagens comparativas, isto é, produzir onde as condições sociais lhe proporcionarem maior retorno para seus investimentos. Neste nível de organização do trabalho, a matriz concebe o projeto, seu design, assegurando para si a patente, o segredo técnico-científico do projeto, e executando-o nos países periféricos, onde o custo da mão de obra é mais barato. Essa seria a nova lógica de organização produtiva globalizada. Importa-se, por exemplo, a matéria-prima de um país periférico, os componentes de Taiwan ou Coréia, o software da Índia, para serem, finalmente, montados na China. O conteúdo tecnológico do projeto e seu design, porém, são segredo e patente dos países centrais (o G-7)! Eis a lógica da globalização!
As novas unidades de produção são, em geral, pequenas, limpas, moduladas, transportáveis facilmente para qualquer região ou país, e bastante automatizadas. As velhas e grandes fábricas e usinas poluidoras ficaram com os países da periferia do sistema capitalista.
Quanto ao uso mais intensivo de tecnologias aplicadas à produção de bens e serviços, notamos que há um incremento excepcional da produtividade do fator trabalho concomitantemente com menor emprego de mão de obra, contribuindo, dessa maneira, para o aumento exagerado do número de desempregados.
Os desempregados sempre desempenharam algumas funções para o sistema capitalista, tais como: baratear a venda da força de trabalho; debilitar os vínculos da solidariedade proletária e desarmar suas entidades representativas de classe; e, menos frequentemente, eram utilizados, pelo sistema, nas conjunturas favoráveis à expansão da produção capitalista.
A crescente automação da produção; a fragmentação das suas unidades produtivas e das instâncias do trabalho; a precarização das relações do trabalho e o aumento do desemprego são, todos, fatores que contribuíram para a fragmentação dos espaços da organização classista do proletariado.
O capitalismo, graças às tecnologias desenvolvidas pela humanidade e às novas formas de exploração do trabalho proletário, gerou uma capacidade de superprodução de bens e serviços que entra em contradição com o baixo consumo dos mercados nacionais. Essa contradição se deve ao fato de a produtividade do fator trabalho, a riqueza criada pelo proletariado, não ter sido socializada. A apropriação privada da tecnologia pela burguesia fechou as portas para grandes contingentes da população mundial. O Capitalismo não precisa dessa parcela da população para produzir o que já vem produzindo, considerados o tamanho dos mercados nacionais e o perfil de distribuição da renda da população mundial.
A revolução tecnológica elevou, por um lado, exponencialmente a produtividade do fator trabalho e, por outro, concentrou seus benefícios em algumas poucas centenas de grandes corporações. A tendência de concentração da renda também se verifica no Brasil. Na década de noventa, por exemplo, alguns estudos apontavam aumento de produtividade por trabalhador na indústria de 84%, enquanto a participação do trabalho assalariado no PIB decrescia de 44% para 36%. (1) E, atualmente, suspeita-se que ele se situe entre 36% e 40% do PIB.
A revolução tecnológica pode ser entendida como um conjunto de conhecimentos científicos traduzidos em tecnologia para otimizar a produtividade da força de trabalho proletária e reforçar simultaneamente seu controle pela classe dominante. Essa revolução tecnológica se expressa em máquinas computadorizadas, robôs; nanotecnologia; Tecnologia de informação (TI), outras tecnologias inclusive as espaciais; máquinas de leitura óptica; produtos da engenharia de materiais; produtos da engenharia genética; produtos da engenharia bélica; produtos da química fina, principalmente dos fármacos; tecnologias para vigilância e controle a distância etc.
Mas, como dizíamos, a riqueza criada pelo proletariado não foi socializada, piorando as condições de vida da população mundial, pois cerca de um bilhão de pessoas ganha até US$ 1,25 por dia (2) e outros dois bilhões sobrevivem com valores equivalentes a um Salário Mínimo.
Essa situação vem sendo agravada pela crescente dominação dos países centrais que penalizam os povos da periferia do sistema capitalista com elevados custos, nas formas de exploração de seus mercados nacionais, na exaustão de suas fontes de matérias-primas e insumos, quando não os agridem belicamente.
Aliás, as agressões são uma maneira de os países centrais reafirmarem sua hegemonia política no mundo, enquanto saqueiam as riquezas nacionais dos países periféricos. A indústria bélica, nos países centrais, é um setor importante para a geração do PIB, e a guerra muitas vezes é utilizada quando o governo de plantão perde apoio político entre sua própria gente.
As bases militares dos países imperiais instaladas em inúmeras partes do mundo são uma nova forma de colonialismo. Os Estados Unidos, por exemplo, mantêm cerca de mil bases ao redor do mundo. (3) Elas desempenham os seguintes papeis:
Os gastos militares dos Estados Unidos, este ano de 2009, ascendem a mais de um trilhão de dólares, valor superior ao PIB de 180 nações, quando consideradas individualmente. A indústria bélica nos EUA emprega cerca de quatro milhões de pessoas e respondem por grande parte do PIB estadunidense. A produção bélica é muito importante para o crescimento econômico daquele país. Há uma cumplicidade de interesses entre o econômico e o político militar naquele país, traduzida no conceito de complexo industrial-militar.
Outro dado importante do complexo industrial-militar diz respeito ao entrelaçamento do político com o econômico. Muitos governantes e políticos em geral são representantes de interesses econômicos. O vice-presidente do ex-governo Bush, segundo notícias de jornais da época, tem interesse econômico junto à empresa petrolífera americana, uma das irmãs que dominam o petróleo no Iraque, após a queda de Saddam Hussein. E segundo ainda esses mesmos jornais, duas razões levaram os EUA a invadiram aquele país. Primeiro: decisão soberana do governo Saddam em vender petróleo apenas em Euros, não mais em Dólares; segundo, dificuldade de acesso das empresas americanas às fontes petrolíferas do Iraque.
Sabemos, agora, com a epidemia da gripe suína (A/H1N1), que o também secretário de defesa do ex-governo Bush, Donald Rumsfeld, é acionista da Gileade Sciences, empresa ligada a Roche que fornece drogas farmacêuticas, em condições privilegiadas, ao governo estadunidense. (3)
Quanto à guerra em si, ela tem assumido papel importante para o funcionamento da economia dos países centrais. Ela representa a queima de estoques bélicos e sua necessidade de reposição. Outros países de menor importância econômica também dependem de indústrias bélicas.
O Instituto Israelense de Exportação (4) estima, por exemplo, que Israel tenha 350 corporações dedicadas à venda de produtos para segurança nacional. A economia israelense está quase que totalmente militarizada. Suas exportações de material de defesa alcançaram a cifra recorde de US$ 3,4 bilhões, e transformou Israel no quarto maior comerciante de armas do mundo. Seu setor de tecnologia em grande parte vinculado à segurança representa cerca de 60% de todas as exportações.
Retomando, porém, a questão da reestruturação produtiva capitalista, ela tem exigido do empresariado grandes investimentos em tecnologia e intensificado a necessidade de sua renovação anual, pois, se novos produtos não forem lançados, eles encalham no mercado mundial. E esta contradição ocasiona rendimentos decrescentes, agravados pelo subconsumo dos mercados nacionais, motivado pela não distribuição da produtividade do trabalho, pela má distribuição de renda entre os bilhões de trabalhadores.
Decorrem, também, dessas contradições a intensificação da competição entre os blocos econômicos, o incentivo à fusão de capitais, quando não conduz à quebradeira de grandes grupos empresariais. Por isso, a nova modalidade de acumulação de capital depende, mais do que nunca, da abertura dos mercados nacionais, de sua desregulamentação, do livre trânsito de produtos e de capital.
Preenchidos os espaços nos ramos da produção de bens, o capital avança, agora, para o setor de serviços, incluídos aí aqueles tradicionalmente de responsabilidade dos Estados nacionais, tais como, saúde, educação, seguridade social, saneamento, transporte, energia, comunicações etc.
Outra característica da reestruturação capitalista, diz respeito ao descolamento do capital financeiro da produção de bens. O volume da mais-valia gerada nos últimos anos maximizou a importância do capital financeiro e dentro dele sua parte especulativa. Avalia-se que o montante de capital que gira anualmente nas bolsas e mercados do mundo inteiro ascenda a US$ 118 trilhões, mais de duas vezes o PIB mundial. (5) Grande parte deste capital financeiro tem servido para rolar o passivo de governos endividados, principalmente aqueles menos desenvolvidos e subalternos ao imperialismo.
O capital financeiro tornou-se politicamente hegemônico em relação às frações do capital produtivo e, em razão disso, impõe diretrizes políticas aos governos de inúmeros países. O neoliberalismo, por exemplo, seria a melhor política de Estado para a continuidade de seus interesses especulativos. Não é de estranhar, pois, as tentativas de redução do tamanho do Estado, principalmente nos países periféricos, e, no limite, apagar a ideia de nação da cabeça de seus trabalhadores.
A preponderância política do capital financeiro e seu descolamento da realidade produtiva estão colapsando o sistema capitalista mundial, conforme noticia diariamente os jornais brasileiros. E qual tem sido o papel do Estado nessa crise? A quem os governos têm ajudado, nesses países? Ao banqueiro, às montadoras, ou aos miseráveis? A lógica do capitalismo diz: ajuda-se a quem precisa mais. O banqueiro precisa de US$ 7,00 trilhões, enquanto o miserável, apenas de US$ 1,25, logo, o banqueiro precisa mais, e é a ele que os governos têm ajudado.
Diante desse cenário macroeconômico, como fica a responsabilidade social empresarial?
Ao que parece, as empresas veem, geralmente, responsabilidade social como custo de produção. Produzir sem poluir, sem devastar, sem sonegar, significa aumentar custos, perder para a concorrência, reduzir margem de lucro. Tal é o cenário competitivo, agora em nível mundial. Vejamos o exemplo das Granjas Carroll, subsidiária da Smithfield Foods, conforme artigo da cientista uruguaia Silvia Ribeiro (jornal La Jornada, 28/04/2009 e transcrito pelo HP de 01/05/09).
Essa empresa foi proibida nos EUA, por contaminação de seus criatórios suínos. Ela então migrou para o México (município de La Gloria, estado de Vera Cruz, 1994) e lá abate, anualmente, cerca de 900 mil cabeças. O agente de saúde Bertha Crisóstomo havia solicitado, em março, à Secretaria de Saúde mexicana a verificação das causas de um surto de infecções respiratórias que afetava 60% dos habitantes daquele pequeno município. A Granja Carroll declarou que se tratava de uma gripe comum e, por isso, nada foi feito em relação à epidemia. E foi dali que surgiu o primeiro caso fatal da gripe suína.
Segundo notícias de jornais, os criatórios são gaiolas de confinamento, e os excrementos, restos de rações a partir de aves, antibióticos e outros materiais são lançados em tanques, lagos de oxidação a céu aberto, onde insetos buscam alimento, ou depositam seus ovos. Artigo de Luis Hernandez Navarro, colunista do jornal La Jornada, da Universidade Autônoma do México (transcrito pelo HP, 08/05/2009), diz que aquela empresa é uma máquina de contaminação. Cada ano ela gera toneladas de lixo que destrói rios e mata milhões de peixes, além de adoecer pessoas.
Nos Estados Unidos, já havia relatório chamando atenção para os criatórios de suínos e os eventuais problemas de saúde que eles viriam causar. Veja depoimento a seguir:
Em 2008, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a “produção animal em fazendas industriais”, onde se destacava o perigo agudo de que “a contínua circulação de vírus característica de enormes varas ou rebanhos incremente as oportunidades de aparição de novos vírus por meio de mutação ou recombinação, episódios que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”.
A comissão alertou também que o uso promíscuo de antibióticos nos grandes estabelecimentos de criação de porcos estava propiciando o auge de infecções por estafilococos resistentes, enquanto os dejetos residuais causavam o surgimento de Escherichia coli e pfiesteria (o protozoário que matou um bilhão de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Outro problema de falta de responsabilidade social é o poder político dessas empresas. Veja a seguir trechos de artigo (baixado da internet) de Mike Davis, professor de História na Universidade da Califórnia (autor de “O Monstro na Nossa Porta: a Ameaça Global da Gripe Aviária).
(...) Qualquer melhora na ecologia desse novo agente patógeno teria que enfrentar o poder monstruoso dos grandes conglomerados empresariais avícolas e pecuários, como o Smithfield Farms (suínos e bovinos) e o Tyson (avícola). A comissão denunciou uma obstrução sistemática de suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas algumas ameaças nada recatadas de cortar o financiamento dos investigadores que cooperassem com a comissão.
Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangcok, na Tailândia, foi capaz de desbaratar as investigações sobre seu papel na propagação da gripe aviária no sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense que buscará as causas do surgimento da gripe suína enfrente a muralha de pedra da indústria da carne de porco.
Outro exemplo baixado da internet e relacionado com depósitos ilegais de metais pesados, inclusive lixo nuclear descoberto nos mares as Somália. Esse exemplo, a seguir, ratifica não só o poder político de multinacionais, mas também sua falta de responsabilidade social:
O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta. Exatamente isso: lixo atômico. Nem bem o governo desfez-se (e os ricos emigraram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contêineres e barris enormes. A população litorânea começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebês malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral.
O depoimento acima é de Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália. Disse ele ainda: "Alguém está jogando lixo atômico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos." Parte do que se pode rastrear leva diretamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarregá-los" e cobra barato.
Continuando, diz Ahmedou: ´´Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma de suas principais riquezas: o pescado. A Europa já destruiu seus estoques naturais de pescado pela superexploração – e, agora, está superexplorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de atum, camarão e lagosta´´.
Já há interpretações quanto ao significado da pirataria nos mares da Somália. Os piratas seriam ex-pescadores, famintos, sem condições de enfrentar os pescadores europeus que invadem seus mares territoriais. Mas como são chamados de piratas, lembramos, aqui, o que disse um ladrão dos mares, no século 4o AC. Levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou "o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares." O pirata riu e respondeu: "O mesmo que você, fazendo-se de senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado de ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador."
Sobre responsabilidade social empresarial, no Brasil, tentaremos analisar o que disse o presidente Lula, sexta-feira (jornais televisivos de 08/05/09) ao comentar a causa das cheias dos rios que submergem inúmeros municípios no norte e nordeste brasileiros. Disse o presidente: ´´A derrubada da mata ciliar dos rios inclusive para aumentar as áreas de pastagem tem sido um ato de irresponsabilidade dos empresários que atuam no Brasil´´.
O presidente Lula se esquece, ou não sabe, que o modelo de desenvolvimento, ou melhor, de crescimento econômico, pelo qual pauta seu governo, é que tem levado a esse estado de calamidade social. Vejamos: uma montadora de veículos diz: presidente, para crescermos x por cento, no próximo ano, teremos que contar com maior produção de aço, e, para tanto, teremos de ampliar a exploração mineral, devastar mais. Teremos, também, de aumentar o plantio de biocombustível, privilegiar os canaviais, a sojicultura, vamos esquecer esse negócio de arroz com feijão. Para aumentar as exportações de produtos frigoríficos, teremos que desmatar mais, levar a pastagem até as margens dos rios. Derrubemos, pois, as matas ciliares.
Como visto, o que está em questão é o modelo de crescimento econômico, voltado apenas para interesses de empresas que não têm nenhum compromisso com o tema da responsabilidade social empresarial.
Nos países centrais, onde os trabalhadores têm alguma participação no processo de crescimento econômico, fruto de lutas passadas, dos tempos da socialdemocracia, as empresas se utilizam de alguns expedientes para fugir de suas responsabilidades sociais.
Um exemplo disso é a compra de carbono em países que ainda mantém alguma reserva ecológica a ser preservada. A compra de carbono permite que empresas europeias, por exemplo, continuem poluindo o meio-ambiente em seus países, desde que elas compensem o dano ao planeta financiando sua preservação em outra parte ou país. Para tanto, governos e entidades empresariais emitem títulos cujos valores se destinam às empresas ou organizações que apresentarem projetos de preservação ambiental. Os títulos inclusive podem ser negociados junto à bolsa de valores.
O Poder Público também é responsável pela falta de responsabilidade social empresarial, pois, inúmeras vezes, não cumprem com seu dever. Um exemplo veiculado pelo Jornal da Tarde (30/04/09): ´´Morador paga, mas esgoto vai para o rio´´. O que temos é a cobrança de um serviço de saneamento que não é realizado, caracterizando-se, portanto, como extorsão, calote. Se fosse o contrário, esse morador já estaria com seu nome junto ao SERASA, tido como inadimplente.
Lá como cá, na empresa ou junto ao Poder Público, a questão da responsabilidade social é tema para muito debate ainda, mas o que está ficando claro para todos é a impossibilidade de o capitalismo dar respostas às demandas sociais da população mundial.
A reestruturação produtiva capitalista impôs uma realidade amarga aos trabalhadores do mundo inteiro. Por um lado, o emprego formal, além de não se expandir proporcionalmente às necessidades sociais, exige cada vez mais qualificação, conquanto ele continue repetitivo. O proletariado, nas novas condições do trabalho, deve estar capacitado para desenvolver habilidades polivalentes, entender as instruções operacionais e sujeitar-se à rigidez das normas do estabelecimento de trabalho. Somente estas exigências já eliminariam de imediato pelo menos um quinto da população mundial, desqualificada para o trabalho, nos moldes do capitalismo atual.
Pelo lado das responsabilidades sociais empresariais, como vimos, está cada vez mais difícil a empresa cumprir com seus compromissos. A competição acirrada, os grandes investimentos e sua depreciação acelerada, as contradições entre capital produtivo e capital financeiro, a busca pelo lucro máximo, e o conluio dos políticos com os interesses econômicos e militares, são os cuidados que afligem a todos nós.
Diante do exposto, nós, trabalhadores, não devemos ter ilusão: somente o socialismo cria oportunidades para todos, pois a riqueza das nações, que é produto do trabalho do proletariado, deve ser apropriada coletivamente. Caso contrário, teremos empresas produzindo canhões e não fabricando Pães. E os canhões, para que servem? Com a palavra Castro Alves, em Espumas Flutuantes: ´´... E ao canhão, inscreva-se nele: És um crime de bronze!´´.
solonsantos@yahoo.com.br – notassocialistas.com.br - Ligeiras notas - Consultas: Artigos do Professor Edmilson Costa – PCB - sobre Reestruturação Produtiva; consulta ao site do PCB; consulta aos meus próprios textos anteriores sobre o mesmo assunto. (1) IPEA. IBGE. (2) ONU. (3) Artigo do jornal Hora do Povo, de 1/05/2009, citando a revista argentina ZOOM que lembra comentário da CNN sobre o assunto. (4) Artigo de Hugh Gusterson, professor de antropologia e sociologia na George Mason University – transcrito pelo HP, em 01/04/2009. (5) professores Edmilson e Sólon Santos.