A luta contra o reformismo e o oportunismo é a principal batalha dos revolucionários na atualidade
Ivan Pinheiro
Entrevista ao jornal “Unidad y Lucha”, do PCPE (Partido Comunista dos Povos de Espanha), outubro de 2013.
Unidad y Lucha: Camarada Ivan, há uns meses o Brasil viveu fortes mobilizações populares iniciadas por causa do preço das passagens de ônibus. Você pode comentar que análise faz o PCB desses movimentos?
Ivan Pinheiro: As manifestações no Brasil não terminaram, apenas se encontram em
fogo baixo. O reajuste das tarifas de ônibus só destampou uma panela de pressão
social que misturava inúmeras insatisfações, derramando todas as angústias e
demandas do povo brasileiro, sobretudo da grande maioria da juventude das
camadas populares, sem perspectiva de futuro digno. Esta explosão desmontou uma
mentira oficial dos governos reformistas do PT, a de que todos os brasileiros
viviam felizes e em harmonia, em um capitalismo "de rosto humano" que favorecia
todas as classes sociais e no qual todos ganhavam. Inventaram dois conceitos
exóticos: "capitalismo de massas" e "sociedade de classe média".
Para se ter uma dimensão do tamanho desta manipulação, basta ver que, apesar do
crescimento do PIB, a desigualdade social segue aumentando. Os ricos são mais
ricos e os pobres mais pobres. Segundo dados do Banco Mundial, apesar de o
Brasil ser a 6ª economia do mundo, está no posto 85º no IDH (Índice de
Desenvolvimento Humano). Na América Latina, ocupa o último lugar na média de
anos de escolarização e o primeiro na evasão escolar no nível básico (PNUD/ONU).
Esse discurso artificial era funcional dentro do país, para manter a passividade
dos trabalhadores, e no exterior, para captar investimentos estrangeiros e
alavancar a posição do capitalismo brasileiro no sistema imperialista.
A opção dos governos do PT pela governabilidade institucional burguesa e por
enfrentar a crise do capitalismo com mais capitalismo está entre as principais
causas da explosão social. Ao tomar posse, em 2003, Lula tinha todas as
condições para convocar uma assembleia constituinte soberana, como o fizeram
Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, a fim de promover as mudanças
prometidas na campanha eleitoral, com governabilidade popular. Pelo contrário,
nomeou o ex-presidente do Banco de Boston para dirigir o Banco Central e manteve
intacta a política econômica do governo neoliberal e entreguista de Fernando
Henrique Cardoso, aprofundando o abandono e a privatização da saúde, da educação
e dos serviços públicos em geral. Atualmente, o governo se dedica à
privatização, em grande escala, de rodovias, ferrovias, portos, hidroelétricas,
aeroportos e até estádios de futebol.
Dando continuidade às políticas neoliberais, o governo do PT promove a entrega
de nossas reservas de petróleo e privilegia o agronegócio, o sistema financeiro
e os grandes monopólios. Recentemente, o governo promoveu um leilão, aberto às
multinacionais, do chamado "Campo de Libra", uma área onde estão as maiores
reservas de petróleo da camada pré-sal, em uma quantidade superior a todas as
reservas brasileiras, desde a fundação da Petrobrás há 60 anos.
Enquanto o governo isenta de impostos o capital, segue a precarização do trabalho (com mais e piores empregos) e a chamada "flexibilização" dos direitos trabalhistas, obviamente para baixo.
Amplia-se a política de "superávit primário", um mecanismo que reduz gastos
sociais para poder pagar aos rentistas, uma dívida pública que nunca foi
auditada. As cifras do orçamento nacional para 2014 são impressionantes: 42,42%
para o pagamento aos rentistas; 3,91% para a saúde, 3,44% para a educação! A
isso chamam "responsabilidade fiscal".
Eis o que engrossa o caldo dos protestos: abandono dos serviços públicos,
privatizações, generalização da corrupção, desemprego e falta de perspectiva
para a juventude. Uma das consequências deste quadro é o descrédito da política
e dos partidos políticos, em função das alianças e acordos espúrios, em um
governo de coalizão com forças conservadoras, capitaneado por um partido que
subiu ao governo prometendo transformações sociais, mas que só se transformou a
si mesmo. A burguesia estimula este descrédito, para generalizar o desgaste e
afastar os trabalhadores da política e dos partidos antagônicos à ordem do
capital.
Há sinais de esgotamento do ciclo do PT como partido popular, classista, de
massas. Isto não significa seu fim, mas a consolidação de um processo de
transformação em um partido da ordem, protagonista do bipartidarismo em que a
disputa se dá, fundamentalmente sobre a forma de administração do capitalismo. O
fato de que o PT se chama "Partido dos Trabalhadores" contribui para confundir
as massas e retardar sua experiência.
O povo espanhol conhece como ninguém outra transformação como esta, pois quem
implantou o neoliberalismo na Espanha foi um partido (PSOE), que até hoje se
apresenta como "socialista e operário"!
Esta explosão popular no Brasil pode voltar com amplitude e combatividade ainda
maiores em 2014, com a Copa do Mundo de futebol, um mega evento cada vez mais
lucrativo para o capital e excludente para os trabalhadores. Será um momento em
que as desigualdades sociais se tornarão mais evidentes, quando o povo
compreenderá que perdeu até o direito a seu mais tradicional direito ao lazer: a
alegria de ir aos estádios de futebol, agora privatizados e privativos das
classes mais abastadas, devido aos elevados preços dos ingressos. Observe-se que
a emergência do Brasil como potência capitalista trouxe para cá também as
Olimpíadas de 2016.
Estes mega eventos e o "destravamento" do capitalismo, que o PT chama "neo-desenvolvimentismo",
estão destruindo inclusive os direitos à vida e à moradia. Como o capitalismo
não pede permissão a nada, vai criminalizando a pobreza, varrendo bairros
populares, comunidades indígenas, ribeirinhas e afrodescendentes. Enquanto isso,
o Estado brasileiro passa por um processo de fascistização, militarizando cada
vez mais a polícia, reprimindo e criminalizando os movimentos populares,
enquanto os meios de comunicação burgueses reinam soberanos, forjando as versões
e manipulações que lhes interessam, já que os governos do PT não só não tocaram
um dedo no monopólio das comunicações como o financiam com publicidade oficial.
Nesta escalada repressiva, tramita no Congresso Nacional, com o silêncio
cúmplice do governo, uma lei "antiterrorista" intencionalmente ampla e evasiva,
para servir à criminalização das lutas populares e das organizações
revolucionárias e para tratar de evitar grandes manifestações durante os
megaeventos esportivos programados.
Unidad y Lucha: Há quem afirme que o governo de Dilma Rousseff e do PT é
favorável aos trabalhadores. Qual é a postura do PCB a respeito?
Ivan Pinheiro: Como tentei demonstrar na pergunta anterior, os governos
"petistas" estão, fundamentalmente, a serviço do capital. Não há governo neutro;
não há terceira via.
O governo Dilma parece mais neoliberal que o de Lula, somente porque agora a
crise do capitalismo ameaça também os países emergentes, que se haviam
beneficiado dela na primeira década deste século. Para retardar a chegada da
crise ao país, ou mitigá-la, Dilma faz cada vez mais concessões ao capital. Seu
governo está sendo pautado pelos meios de comunicação burgueses, por aliados
conservadores e pelas metas estabelecidas pelas agências internacionais do
capital. No entanto, seu governo é de continuidade, não de ruptura com o de
Lula.
No imaginário de parte da esquerda latino-americana, os governos "petistas"
ainda parecem progressistas; alguns chegam a idealizá-los como
anti-imperialistas. Isso tem a ver com o passado combativo do PT e de Lula, sua
principal referência.
Superar esta ilusão, este obstáculo, é de fundamental importância para que
avancemos na construção de uma unidade de ação continental revolucionária,
anticapitalista e anti-imperialista. O PT é hoje um partido da ordem. Domesticou
e cooptou as principais entidades de massas, como a CUT (Central Única dos
Trabalhadores) e a UNE (União Nacional dos Estudantes). Seu aliado principal é
um partido de centro-direita (PMDB), que tem em suas mãos a chave do poder
legislativo brasileiro, presidindo, ao mesmo tempo, a Câmara de Deputados e o
Senado, além de ocupar a Vice-presidência da República e ministérios
estratégicos.
No Brasil, nunca os banqueiros, as empreiteiras, o agronegócio e os monopólios
haviam tido tanto lucro. A política econômica e a política externa do Estado
burguês brasileiro estão a serviço do projeto que busca fazer do Brasil uma
grande potência capitalista, nos marcos do sistema imperialista. Seu fetiche é
uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, que confere o status de
potência. As chamadas multinacionais de origem brasileira, alavancadas por
financiamento público, já dominam mercados em muitos países, especialmente na
América Latina, um grande canteiro de obras para as empreiteiras preferidas do
governo, principais fontes de financiamento privado do PT. A Petrobras,
apresentada como estatal, é uma multinacional como outra qualquer, com mais de
60% de suas ações em mãos particulares, vendidas na Bolsa de Nova York.
Hoje, o governo brasileiro é o organizador da transferência da maior parte da
renda e da riqueza produzida pelo país para a burguesia, por meio do superávit
primário, da política de elevadas taxas de juros e do sistema tributário
altamente regressivo. O consumo é estimulado com isenções tributárias às
empresas, com crédito fácil e caro, mas não com aumentos salariais. O resultado
é que as famílias brasileiras têm um dos índices de endividamento mais altos do
mundo, que compromete, em média, 46% de suas rendas.
Unidad y Lucha: No seu país existem diferentes organizações que se reivindicam
do campo comunista. Que tipo de relações mantêm com elas?
Ivan Pinheiro: A maioria destas organizações imagina o imperialismo como o inimigo externo, o que as leva a defender o que uns chamam "projeto popular e democrático", outros "nacional desenvolvimentismo" ou "libertação nacional". Prevalece neste campo político o discurso contra o imperialismo norte-americano – como se houvesse outro imperialismo bom, com o qual poderíamos nos aliar – e contra o neoliberalismo, que veem como um capitalismo "selvagem", desumano.
Na visão do PCB, não há contradições antagônicas entre o núcleo hegemônico da
burguesia brasileira e o imperialismo, que não é um "inimigo externo" que deve
ser combatido por uma frente de conciliação de classe entre o proletariado e a
burguesia "nacional", como dizem os reformistas. É um inimigo interno, já que o
Brasil é parte do sistema imperialista, apesar de suas contradições e de ainda
ser um ator coadjuvante, mas em plena ascensão.
O PCB, estudando o capitalismo brasileiro, a partir de um rigoroso ponto de
vista marxista, chegou à conclusão de que ele é plenamente desenvolvido, de que
dispõe de todas as instituições e condições necessárias para seu florescimento.
Com esta análise, chegamos à compreensão lógica de que a contradição fundamental
da sociedade brasileira se dá entre o capital e o trabalho, o que nos leva a
concluir que o caráter da revolução brasileira é socialista. Isto não significa
que estamos dizendo, como insinuam nossos detratores, que em nosso país, o
socialismo está ali na esquina, porque nos faltam (e muito) as condições
subjetivas, entre outros fatores em função da hegemonia reformista e oportunista
no campo que se define genericamente como esquerda.
Obviamente, temos divergências com essas organizações na política de alianças.
As estratégias reformistas implicam em alianças com a burguesia, em privilegiar
a luta no campo institucional. Transmitem aos trabalhadores a ilusão de que é
possível humanizar o capitalismo e caminhar até o socialismo pela democracia
burguesa, por meio de avanços seguros e graduais. Já as estratégias socialistas
levam a alianças no campo das forças políticas e sociais anticapitalistas e
anti-imperialistas, privilegiando as lutas de massas, sem descartar nenhuma
forma de luta.
Com algumas destas organizações reformistas temos unidade pontual na
solidariedade internacional, como no caso da Revolução Cubana, do processo de
mudanças na Venezuela, da resistência dos sírios e de outros povos.
Mas não estamos juntos nas lutas contra as ações de caráter imperialista do Brasil, porque desagradam ao governo, como é o caso da ocupação do Haiti, do intenso comércio de armas que o Brasil mantém com a Colômbia e Israel, do acordo militar com os Estados Unidos estabelecido durante o governo Lula, denunciado em 2010 pelo PCB, e da solidariedade à insurgência colombiana, em relação à qual os reformistas querem manter distância para não comprometer sua imagem de "democratas", de "esquerda moderna". Consideram que a persistência da guerrilha dificulta a integração latino-americana e a estabilidade dos governos que consideram progressistas. Querem uma "paz" em curto prazo, a qualquer preço, ainda que seja a dos cemitérios.
Mas também há no Brasil organizações comunistas com as que temos afinidade
estratégica e, portanto, também na oposição aos governos "petistas". Todavia,
por uma série de razões, ainda são débeis os laços que nos unem. Existem também
partidos e tendências com referências socialistas, democráticas radicais e
libertárias, em parte com vocação reformista, mas com os quais temos unidade,
sobretudo nos temas nacionais, na oposição à transformação do PT, incluindo
entre eles uma diversidade de organizações com referências trotskistas que, ao
menos no caso brasileiro, não podem ser analisadas como um conjunto homogêneo.
Nossas principais diferenças com algumas destas organizações se dão fundamentalmente no campo da solidariedade internacional, que não é uma questão irrelevante para um partido marxista-leninista, como é o caso do PCB, que se reivindica e tem um comportamento profundamente internacionalista. Há organizações que jogam objetivamente o jogo do imperialismo em todos os temas internacionais, chegando até o ponto de apoiar o que chamam de "rebeldes" na Síria, de caracterizar a Revolução Cubana como una "ditadura capitalista" e considerar que Chávez (Maduro, hoje) e Evo Morales não têm qualquer diferença em relação a seus opositores oligárquicos a serviço do imperialismo.
Com o surgimento das manifestações de rua e como consequência do aumento da
repressão policial, surgem combativos grupos anarquistas, de corte
anticapitalista, mas que subestimam a centralidade do trabalho e da organização
da classe. Adotam uma linha de insurgência foquista e horizontal. O PCB, que
defende a radicalização da luta de classes e o direito à insurreição dos povos,
compreende a violência com que atuam estes jovens militantes, muitos deles
moradores de comunidades pobres, movidos por um justo ódio a uma polícia que
assassina a cada dia seus amigos e parentes. Em que pesem nossas diferenças, não
nos associamos à campanha de satanização da qual têm sido vítimas, inclusive por
parte de algumas correntes populares.
Dentro deste quadro complexo, o PCB se move buscando a unidade pontual, em cada
caso concreto, sem manter nenhuma relação exclusiva com nenhuma organização
política deste amplo e diversificado campo do que, à falta de outro nome,
podemos chamar de esquerda.
Unidad y Lucha: Como analisa os diferentes processos de integração que estão
surgindo na América Latina, como MERCOSUL, ALBA, CELAC e UNASUL?
Ivan Pinheiro: Apesar de todas as limitações, determinadas pelo fato de que,
inclusive nos países nos quais mais se aprofundaram os processos de mudança
(Venezuela, Bolívia e Equador), segue vigente o sistema capitalista, o PCB nutre
uma simpatia moderada com experiências como a ALBA, uma tentativa de contraponto
à integração sob a hegemonia imperialista, que seria implantada se o projeto da
ALCA não houvesse sido derrotado pelos povos latino-americanos.
A ALBA luta para ser uma integração soberana e solidária, não só entre os
estados e os mercados, mas também entre os povos de "Nuestra América". Mas a
indiferença do governo brasileiro, o desaparecimento físico do Comandante Chávez
e a ofensiva do imperialismo em nosso continente dificultam seu desenvolvimento.
Para entender melhor o capitalismo brasileiro, o Brasil esteve contra a ALCA,
mas boicota a ALBA, buscando um espaço próprio para seu desenvolvimento. Assim,
o Brasil, além de boicotar a ALBA, travou o desenvolvimento do Banco do Sul e do
Sucre (um projeto de moeda comum latino-americana), iniciativas de Hugo Chávez
que não saíram do papel, dada a oposição brasileira.
Na realidade, a estratégia brasileira é ampliar e continentalizar o MERCOSUL,
isolando e esvaziando a ALBA. O MERCOSUL, como sabemos, é um projeto de
integração capitalista, liderado pelo Brasil e, em menor escala, também pela
Argentina, ao qual a Venezuela e outros países sul-americanos vêm aderindo, em
função de suas necessidades de mercado. Como o chamado Pacto do Pacífico
(México, Colômbia, Chile e Peru) é um contraponto, mais à ALBA que ao MERCOSUL,
nada impede que este e aquele se integrem em médio prazo.
Já a CELAC e a UNASUL, ainda que tenham a virtude de não incluir os Estados
Unidos e, no caso da primeira, incluir Cuba, são organizações interestatais
heterogêneas, que abarcam desde os países que já mantêm TLCs (Tratados de Livre
Comércio) com os Estados Unidos até aqueles que têm mantido uma postura
anti-imperialista. Ambas têm sido importantes para a adoção de alguns acordos e
a solução de alguns conflitos, mas incapazes de evitar golpes do imperialismo e
das oligarquias, como nos casos de Honduras e Paraguai, o crescimento das bases
militares ianques na região, além de se omitirem em relação ao importante
diálogo político para a solução do conflito colombiano em Havana. Tanto na CELAC
como na UNASUL, a hegemonia é amplamente capitalista.
Na América Latina necessitamos de uma articulação de forças revolucionárias,
anticapitalistas e anti-imperialistas, para fazer frente à hegemonia do Foro de
São Paulo, que se transformou em correia de transmissão do capitalismo
brasileiro para ocupar mais espaços na região.
Com a intenção de afirmar o Foro como braço regional do neodesenvolvimentismo
sob a hegemonia brasileira, o PT – em aliança com outros partidos reformistas e
com aqueles que priorizam razões de Estado – passa a privilegiar os processos
eleitorais em detrimento das lutas de massas, buscando em cada país contribuir
política e materialmente para a eleição de governos aliados com esta
articulação. Isto significou a descaracterização do Foro de São Paulo, que havia
nascido como uma articulação anti-imperialista e socialista.
Unidad y Lucha: O PCB realizará seu 15º Congresso em abril de 2014. Que
objetivos tem o Partido em relação a este Congresso?
Ivan Pinheiro: Partindo do pressuposto de que a
estratégia socialista da revolução brasileira e a análise da crise mundial do
capitalismo, elaboradas pelo XIV Congresso do Partido Comunista Brasileiro
(PCB), são consensuais nas fileiras do PCB, o Comitê Central do PCB decidiu
centrar o debate do XV Congresso Nacional em questões internas. Na questão
orgânica, destacaremos o balanço e perspectivas do processo que chamamos
Reconstrução Revolucionária. No que se refere à linha política, terão
centralidade as questões da via e das mediações táticas da estratégia
socialista.
O XV Congresso Nacional se dará em um momento especial para o Partido, que
experimenta uma grande renovação e um crescimento com qualidade, ainda que
modesto, a partir do XIV Congresso, quando o PCPE nos honrou com sua presença. A
maioria dos atuais militantes do Partido está participando pela primeira vez de
um Congresso do PCB.
Com esta pauta mais orientada para questões internas, e diante da necessidade de
usar o melhor de nossas energias para a efetiva participação da militância em
todo o processo congressual, tomamos a difícil decisão de não convidar desta vez
o conjunto dos partidos comunistas de outros países, o que não significa que não
receberemos com afeto os camaradas dos partidos mais identificados com o PCB que
queiram presenciar este debate, trocar experiências, opiniões, oferecer à nossa
militância seus pontos de vista e estreitar os laços de amizade e unidade dos
partidos comunistas que combatem o reformismo.
Unidad y Lucha: Em novembro deste ano se realizará em Lisboa o Encontro
Internacional de Partidos Comunistas e Operários. Como vê o estado de saúde do
Movimento Comunista Internacional e, especificamente, na América?
Ivan Pinheiro: Seguimos carentes de um novo e vigoroso movimento comunista
internacional, lamento ter que incluir aqui o adjetivo revolucionário, pois cada
vez as palavras e conceitos perdem mais seu sentido. Há partidos que se dizem
comunistas, inclusive no Brasil, mas que na realidade são linha auxiliar do
capital. Não mudam de nome porque lhes é funcional, a fim de serem aceitos e bem
tratados pela burguesia, em função dos favores que prestam iludindo os
trabalhadores com a possibilidade de humanizar o capitalismo.
Mas não defendemos uma internacional verticalizada e burocratizada, que pretenda
dirigir os partidos membros com manuais de orientações padronizadas, como se os
países fossem homogêneos e as revoluções um produto de exportação. Pensamos em
uma articulação comunista internacional baseada na unidade de ação, com uma
coordenação que facilite o intercâmbio de informações, as relações bilaterais e
regionais, contribua para o debate e a formação política e ideológica, para o
protagonismo e a unidade de ação do proletariado em âmbito mundial e a
solidariedade internacionalista aos povos em luta. O ocaso do culto à
personalidade e a não existência de um "partido guia" são fatores favoráveis a
este projeto.
Esta articulação deve ser levada ao âmbito regional. Temos visto com bons olhos
o recente encontro em Bruxelas, que reuniu trinta partidos comunistas
(revolucionários) de vários países da Europa, incluindo o PCPE, e que criou uma
alternativa ao reformismo do Partido da Esquerda Europeia (PEE) que, ao que
sabemos, se articula com o Foro de São Paulo na perspectiva de uma internacional
social-liberal. O PCB está disposto a colaborar, dentro de suas possibilidades,
para a reprodução de uma iniciativa do gênero na América Latina
A luta contra o reformismo e o oportunismo é a principal batalha dos
revolucionários na atualidade.
Unidad y Lucha: Há algo mais que gostaria de dizer aos nossos leitores?
Ivan Pinheiro: Algo mais sobre a América Latina, região que se destaca hoje no
tabuleiro da correlação de forças mundial.
Mais além da necessidade de reforçar nossa solidariedade à heroica Revolução
Cubana, aos processos da Bolívia e Equador e a resistência dos povos, a ação dos
internacionalistas deve concentrar-se hoje na luta de classes que se desenvolve
na Colômbia e Venezuela. O futuro da América Latina está sendo jogado nestes
dois países de povos irmãos, com repercussões mundiais.
Na Venezuela, segue a ofensiva da direita, valendo-se da ausência física do
Comandante Hugo Chávez, do resultado modesto na vitória legítima de Nicolás
Maduro e, principalmente, das limitações da chamada revolução bolivariana. Uma
revolução que não avança, que não consegue ir destruindo as estruturas do estado
burguês, expropriar as oligarquias e construir o poder popular, corre o risco de
ser derrotada. Ante o impasse político, se aproxima o momento do ajuste de
contas. Ali não há possibilidade de conciliação, de pactos de elites.
A derrota do povo venezuelano pela oligarquia e o imperialismo impactaria negativamente na Mesa de Diálogos de Havana. Do mesmo modo, a frustração destes diálogos, além de fragilizar e ameaçar o potente e unitário movimento de massas colombiano, também influiria negativamente na Venezuela.
É necessário reforçar nossa solidariedade ao Presidente Maduro, ao Partido
Comunista de Venezuela e ao proletariado venezuelano, este ator decisivo para
garantir o desbloqueio do processo bolivariano e o seu necessário avanço ao
socialismo.
O êxito da Mesa de Diálogo de Havana não é um problema só dos colombianos, mas
de todos os povos da América Latina e do mundo. É necessário desmontar o projeto
imperialista que atribui à Colômbia o papel que Israel tem no Oriente Médio.
Se os diálogos prosperam, poderá haver no país um clima favorável para as lutas
pelas demandas populares, mas não uma "paz social", porque a luta de classes não
se acaba. Se frustrarem-se os diálogos, pode se repetir na Colômbia outra fase
de extrema violência contra o povo e suas organizações, uma marca da história do
estado terrorista colombiano.
A oligarquia colombiana quer uma paz dos
cemitérios, rápida, sem custos, para criar um ambiente favorável ao
desenvolvimento capitalista. Ajuda a desestabilizar a Venezuela para tentar
impor um acordo rebaixado à insurgência. Não nos enganemos com o "pacifismo" da
oligarquia e do imperialismo que a dirige. Só recorreram ao diálogo porque sua
guerra contra a insurgência fracassou, apesar de todos os imensos recursos
militares e financeiros investidos no Plano Colômbia, dos paramilitares, das
bases estadunidenses, da assessoria da CIA e da Mossad.
Por outro lado, os interesses do povo colombiano e das guerrilhas, que se fundem na mesa de diálogo, são por uma solução política com justiça social e econômica, consolidada através de uma Assembleia Constituinte soberana, com amplia participação popular.
O PCB se solidariza com as guerrilhas, o Partido Comunista Colombiano e as
organizações de massas. Neste momento, é decisiva a solidariedade à Delegação
das FARC em Havana e à Marcha Patriótica (um movimento plural e unitário, que
congrega milhares de organizações políticas e sociais), de cujo desenvolvimento
depende em grande medida a continuidade e a viabilidade das negociações.
Finalmente, deixamos aqui uma saudação fraterna e revolucionária ao PCPE (Partido Comunista dos Povos da Espanha), com o qual compartilhamos a ousadia de contribuir para que um dia o comunismo prevaleça no mundo, colocando fim à exploração, à opressão, às guerras imperialistas, à fome e à miséria.
Unidad y Lucha: Muito obrigado, camarada.
Ivan Pinheiro - Sec. Geral –
www.pcb.org.br - o original encontra-se em www.unidadylucha.es/...