Macunaíma
Acabei de ler Macunaíma, livro de Mario de Andrade, escrito em 1928, seis anos após a semana de arte moderna, movimento literário e artístico que iria romper com as velhas formas de expressão artística em geral. Para entender melhor o conteúdo do livro e o contexto histórico em que ele se situa, recorri a algumas críticas literárias já publicadas sobre o assunto.
O Modernismo, como é sabido, propunha, em termos de literatura, a construção de uma linguagem autenticamente nacional e popular. Nas artes plásticas já havia inclusive essa preocupação pelo nacional, a exemplo de alguns precursores como Almeida Júnior e Benedito Calixto, cujos temas estavam voltados para o cotidiano popular, pelo histórico nacional; na Literatura, lembramos os nomes de Graça Aranha (Canaã), Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma) e Euclides da Cunha (Os Sertões).
A busca por novas formas de expressão culmina na Semana de Arte Moderna, em 1922. Os principais nomes do modernismo são: Oswaldo de Andrade, Anita Mafalti, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Raul Bopp (Cobra Norato), Ascenso Ferreira (Catimbó, Cana Caiana); Victor Brecheret (escultura); e outros tantos.
O modernismo se opôs à linguagem bacharelesca, artificial e idealizante de uma estrutura de classes arcaicas que seria abalada, até certo ponto, com a Revolução burguesa de 1930. Até certo ponto porque não se fez a Reforma Agrária, razão pela qual se acentuou o êxodo rural e o consequente inchaço dos centros urbanos.
Segundo alguns autores, Macunaíma expressa pesquisa do autor sobre a realidade social urbana e o folclore brasileiro, traduzindo em literatura as formas da oralidade do nosso povo, e buscando, ao mesmo tempo, uma síntese entre o erudito e o popular, a partir da própria produção cultural do povo, que outra coisa não é senão seu folclore, suas crenças, e sua maneira de ser, seu temperamento.
O modernismo, apesar de sua rebeldia artística, não se vinculou a nenhum movimento político, a nenhuma proposta de transformação da sociedade. Note-se, inclusive, que foi nesse mesmo ano que se deu a fundação do Partido Comunista do Brasil. Foi, contudo, uma militante desse Partido (Pagu) a primeira a escrever um romance-reportagem (Parque Industrial) sobre a triste situação do proletariado urbano paulistano, em 1931, fato, contudo, isolado e de pouca repercussão naquele momento.
A proposta de uma arte voltada para o povo, sua cultura, sua história, e como instrumento de conscientização popular e inspiradora da transformação social viria com o cinema novo, em fins dos anos cinquenta e meados da década seguinte. Essa experiência, todavia, foi abortada pela classe dominante, a burguesia, instalando uma ditadura militar que vigorou, no País, durante 21 anos. O próprio filme Macunaíma, realizado em 1969, teve imensa dificuldade para driblar a censura então vigente, tendo que disfarçar sua mensagem popular.
O cinema novo, como disse Randal Johnson, se opôs à chanchada e aos filmes sérios produzidos em São Paulo, especialmente os da Vera Cruz, os quais refletiam, em ambos os casos, uma visão colonizada, idealizada e inconsequente da realidade brasileira.
A figura do herói: havia no passado uma idealização clássica dos homens enquanto agentes do processo histórico. As tipologias eram: o Santo como exemplo da piedade, da pureza de costume, dos bons valores morais da cultura dominante; o Administrador como expressão política de governo; o Artista, paradigma das artes, expressão das qualidades de tudo que é belo; e o Herói como defensor e protetor de um povo.
O herói grego, por exemplo, encarna as qualidades do guerreiro (Aquiles), da astúcia (Ulysses), da força (Ajax), da coragem (Jasão). Três são as características do herói grego: marca privilegiada de nascimento, berço nobre ou descendência de deuses com humanos; defensor da coletividade, por quem luta e se sacrifica; e morte em grande combate, no altar das epopeias, ou morte obscura, solitária e enigmática. Há, também, certa circularidade na trajetória do herói: o berço, a iniciação, os ritos de passagem, as primeiras provas, os grandes feitos e o retorno ao caos ou ao seu encantamento.
Mas, que tipo de herói é o nosso Macunaíma? Ao que parece, Macunaíma é um herói sem nenhum caráter, aliás, epíteto do herói, segundo seu autor. Ele vive e morre sem uma causa social, nada defende senão seus próprios interesses. Embora traga consigo os sinais dos heróis, expressos em sua ligação com a mãe Natureza, e com qualidades excepcionais, mágicas, ele não defende, contudo, seu povo, ao contrário, rivaliza com seus irmãos, tira deles seu sustento, mente e cobiça a mulher alheia. Talvez, por isso, teve um fim triste, solitário, enigmático, como veremos no correr dessas ligeiras notas.
Quanto à leitura do livro propriamente dito, estranhamos algumas expressões indígenas e, por isso, recorremos aos dicionários, às enciclopédias, para situar às entidades que povoam um mundo totalmente mágico, no livro, onde os conceitos de tempo e espaço extrapolam a noção que temos, usualmente, em nossa sociedade capitalista. Não contei, porém, estimo que o autor deva ter usado, nesse livro, cerca de 300 verbetes indígenas.
Aliás, a contribuição do tronco linguístico Tupi e da família Tupi-Guarani para o Português é muito grande. Estima-se em trinta mil vocábulos. Quem não conhece, por exemplo, aqui mesmo em S. Paulo, as ruas Tabatinguera (aldeia velha e extinta), o bairro Jabaquara (refúgio dos cachorros, nestes termos, os negros que fundavam quilombos), os rios Tietê (rio verdadeiro) e Tamanduateí (rio do tamanduá grande), e o nome Araraquara (refúgio ou ninho de araras), cidade onde Mário de Andrade concebeu a personagem Macunaíma!
Outras contribuições importantes do Tupi-Guarani estão presentes na culinária (tapioca, beiju); nos fármacos (os chás caseiros); nos nomes de acidentes geográficos, aves, insetos, répteis, peixes e árvores. Não nos esqueçamos, também, que o português dos colonizadores era áspero, foi o Tupi que suavizou o modo de falar, dando-lhe sonoridade. Veja, por exemplo, a sonoridade da música Ave Maria: Cai a tarde, tristonha e serena, em suave, macio, langor, despertando no meu coração, a saudade do primeiro amor...! Por último, estima-se que ainda hoje haja cerca de 180 línguas vivas indígenas. Ah! Vem dos índios nosso costume de tomar banho, os índios viviam nadando e pescando nos rios, já o europeu nunca foi dado aos banhos!
A contribuição das línguas faladas na África negra para o Português foi menos acentuada, estima-se cerca de três mil vocábulos, predominando palavras de origem da família nígero-congolesa (ioruba, banto, fula, mandinga etc.). Porém, foi grande a contribuição dos negros africanos para a culinária, a música, a dança e a religião!
O livro Macunaíma recupera valores culturais esquecidos, tradicionais, as lendas, crenças, enfim, raízes da nossa identidade histórica. Percebemos isso ao longo da saga do herói, suas artimanhas, os rituais religiosos indígenas e africanos etc.
O enredo de Macunaíma não é linear, porém relativamente simples e talvez até banal. O excesso, porém, de palavreado indígena e situações corriqueiras surreais tornam a leitura um pouco difícil e enfadonha.
Como dissemos, o autor teria concebido a personagem, a história, durante umas férias passadas em Araraquara, interior de S. Paulo, a partir de leitura de outros autores sobre esse tipo de universo mágico, principalmente do etnólogo alemão Koch-Grunberg que esteve no Brasil diversas vezes entre os anos 1899 e 1924, pesquisando a cultura indígena amazonense, vindo inclusive a falecer no Brasil, no município de Vista Alegre, AM, em 1924.
Koch-Grunberg publicou artigos para revistas especializadas sobre suas pesquisas (1903-05) que foram posteriormente condensados em uma única obra, intitulada: Dois anos entre os índios do Brasil (1911). O autor alemão percorreu e explorou, entre outras, a região de onde saiu Macunaíma, o vale do rio Urariquera.
Mário de Andrade teria, também, copiado alguns trechos de autores brasileiros sobre diferentes assuntos e os inseridos em partes de seu livro, como veremos, por exemplo, na carta às Icamiabas (amazonas). Ele mesmo confessa isso, o que não é nenhum demérito, uma vez que tornou público tal procedimento!
O livro escrito, inicialmente, por mero prazer, uma brincadeira, foi corrigido, posteriormente, para ganhar maior densidade literária.
Por misturar temas, crenças indígenas, africanas, comentários diversos, porém contextualizados, o livro foi classificado, pelos críticos, como uma Rapsódia que, como sabemos, lembra a arte dos rapsodos gregos que cantavam diferentes passagens de textos épicos na Grécia dos tempos dos heróis.
Mas, quem é Macunaíma, Ci, Capei, Naipi, Piaimã e tantas outras entidades citadas nessa rapsódia?
Na tradição dos índios macuxis, acavaís, arecunas, taulipangues e caraíbas que habitam o alto Rio Branco e oeste de Roraima, Macunaíma é uma divindade, um ser que trabalha à noite, espírito grande e bom que criou a terra e as plantas. CI também conhecida pelos caboclos amazonenses como mãe-da-peste ou mãe-do-mato é uma divindade feminina maléfica, plena de energia sexual, a libido instintiva dos mamíferos. Capei é a boiúna (m´boi una, cobra preta), a sucuri, encarnação de outra divindade que povoa os rios amazonenses, mais conhecida como mãe-d´água, que aprisionou a bela Naipi, filha de um morubixaba, e a transformou em uma cachoeira. Como tal, ela fala e lamenta para Macunaíma sobre sua triste sina.
O autor recorre, muitas vezes, às figuras de linguagem, à prosopopeia, às fábulas, dando voz às coisas inanimadas, aos animais, insetos e às aves. A maioria das entidades citadas no livro não passa de uma personificação das forças da Natureza. Neste sentido, o mundo mágico de Macunaíma é anterior ao mito. Trata-se, pois, de vários estágios anteriores àqueles da Grécia dos tempos dos heróis. Na magia, os fenômenos da natureza são eles mesmos deuses, enquanto no mito, os deuses comandam as forças da natureza e jogam com o destino dos homens.
Em Macunaíma, porém, não há separação de tempo e espaço na narrativa da saga do herói, as realidades sociais se entrelaçam, enquanto o herói observa e vivencia o modo de vida na urbe. O gigante Piaimã (o Curupira), devorador de gente, é, também, Pietro Pietra, um colecionador de joias e pedras preciosas. Ele possui um bem valioso de Macunaíma, seu talismã, a pedra Muiraquitã. Aliás, o fio condutor da história se prende a essa busca, mil tentativas para recuperá-la.
Muiraquitã é uma pedra (nefrita, jade, jadeíta, azeviche, verde) talhada em forma de ser humano ou animal, produzida pelos índios do baixo Amazonas. No folclore de região, as muiraquitãs são consideradas presentes das amazonas (Icamiabas) aos índios e têm função de amuleto. A muiraquitã de Macunaíma, e que está em poder de Pietro Pietra, lhe fora dada pela sua amada Ci, hoje a estrela beta de Centauro.
Quanto à importância, ao significado da muiraquitã para Macunaíma, tentaremos levantar uma hipótese mais adiante, ao longo dessas Ligeiras notas.
As personagens de primeira plana são basicamente três irmãos, negros, filhos de tribo indígena. Macunaíma, o herói da história, Maanape, irmão idoso e conhecedor das artes do feitiço e do poder curativo das hervas, e Jiguê, irmão na força da mocidade, porém ingênuo. As principais características de comportamento, de temperamento, são: a feitiçaria do irmão mais velho, a ingenuidade do moço, e a preguiça e esperteza do caçula.
Essas características como veremos no correr dos acontecimentos lembra um pouco o folclore sobre o que se pensa sobre o nosso povo, notadamente os colonizadores, a cultura dominante e estrangeira.
Na primeira parte do livro o autor narra as aventuras cotidianas da tribo tapanhumas (designação comum aos negros africanos aqui residentes). As dificuldades da pesca, da caça, da coleta de frutas; as crenças, os medos, as doenças etc.
O herói até aos seis anos de idade não se mostra nada inteligente, e quando instado a falar, apenas diz: ai! que preguiça! Mas se mostrava todo malandro quando iam tomar banho, nus, no rio, quando, então, mergulhava para bulir com a graça das cunhãs (moçoilas).
Quando a cunhada de nome Sofará carregava o piá (o menino) para passear na floresta, este se enrolava nas tiriricas (ervas daninhas), tajás (tinhorão) e trapoerabas (plantas de valor medicinal) da serrapilheira e, num átimo, tomava corpo de adulto, um príncipe, e então brincava de amor com a cunhada, até se cansar! Na hora de ir para a aldeia, Macunaíma voltava à forma de menino.
Como se vê, o herói já tinha poderes mágicos que o diferenciava dos demais. Revelava, também, seu caráter, aliás, nenhum caráter. A luxúria do brasileiro seria, talvez, numa visão folclórica, herança cultural de Macunaíma! As espertezas do herói para tirar proveito das coisas do irmão, seu comportamento egoísta, mesquinho, culminaria com a desgraça dele e de sua família, como veremos ao final destas ligeiras notas.
Macunaíma lembra um pouco o homem da sociedade capitalista, competitiva, muito bem simbolizada pelo refrão: leve vantagem, expressão cunhada por um craque de futebol carioca para uma marca de cigarro e, por isso, conhecida pela Lei de Gerson.
O Curupira: Cansada das artimanhas e esperteza de Macunaíma, sua mãe o levou para passear na mata, e lá o abandonou. O curumin, após vagar por muito tempo na mata, encontrou o Curupira moqueando carne. Meu avô, disse Macunaíma, dá caça pra mim comer? O gigante tira, então, um pedaço de carne da própria perna e a oferece para ele, que come e sai para procurar o caminho da aldeia.
O gigante, porém, era um devorador de gente, e logo após correu atrás de Macunaíma, gritando, carne de minha perna, e esta respondia: que foi? Macunaíma percebendo que não podia se esconder do Curupira vomitou a carne numa poça de lama, e assim conseguiu escapar do gigante.
O encontro de Macunaíma com o Curupira evoca dois temas: um rito de passagem, no caso, acesso do herói ao mundo mágico dos deuses, pois Curupira é, também, um deus; e a antropofagia como realidade lendária ou real de alguns povos indígenas, mas simbólica no capitalismo, onde as relações sociais são antropofágicas, decorrentes de um sistema econômico baseado na exploração do homem pelo homem que conduz ao darwinismo social.
A Cutia: Mais adiante, o curumim encontrou uma cutia farinhando mandioca. Minha avó, dá aipim pra mim comer? A cutia perguntou-lhe o que ele fazia na mata, e ele então lhe contou como enganou o Curupira. A cotia disse-lhe: Culumi faz isso não, meu neto... Vou te igualar o corpo com o bestunto. Ela jogou, então, a tapueira, a água envenenada da mandioca, no corpo de Macunaíma que conseguiu livrar apenas a cabeça, a face. Imediatamente, Macunaíma botou corpo de homem feito, mas com cabeça rombudo e carinha enjoativa de piá, de criança.
Notamos, nesta passagem, que Macunaíma, embora tenha se tornado adulto, seu temperamento, sua atitude, ainda é própria de um tipo conhecido de adolescente, egoísta e folgazão.
Na primeira parte do livro, há várias passagens mirabolantes, magias e malandragem do herói. Ora ele vira formiga, ora, árvore frutífera, mas sempre brincando de amor com as cunhãs do irmão.
Há uma passagem no livro em que Anhangá (espírito do mal, diabo) transforma a mãe de Macunaíma em uma veada, caçada e morta pelo herói. Enterrada a velha, sua barriga foi se inchando até se transformar, com as chuvas, num cerro macio.
O mundo de Macunaíma, sem duvida, é mágico, porém dinâmico, com transformações de seres animados e inanimados. Os seres, os entes, não morrem, se transformam, encantam-se.
Com a morte da mãe, encerra-se uma fase da vida do herói, sua infância e adolescência. Macunaíma e seus dois irmãos, Maanape, Jiguê, e a cunhada Iriqui, dão-se as mãos e partem por esse mundo a fora.
CI, Mãe do Mato: ao adentrarem a mata e após longa caminhada, Macunaíma estanca e diz: tem coisa! Os irmãos deixaram Iriqui sentada sobre uma raiz, e avançaram légua e meia. Lá estava uma cunhã dormindo. Era Ci, Mãe do Mato. A cunhã era linda, o corpo chupado pelos vícios, colorido com jenipapo.
O herói se atirou sobre ela para brincar. Travou-se, então, uma briga terrível, a Icamiaba feria bastante o nosso herói que, desvencilhando-se dela, disparou numa corrida gritando: me acudam que sinão eu mato! Os irmãos socorreram Macunaíma e se atiraram contra a Mãe do Mato, dominando-a, finalmente. O herói, muito safado, lançou-se sobre a Icamiaba para fazer amor. Nesse momento, vieram muitas araras vermelhas, jandaias, tuins, coricas, periquitos e muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo Imperador do Mato Virgem.
E os três manos seguiram com a companheira nova. Atravessaram a cidade das Flores, evitaram o rio das Amarguras passando por debaixo do salto da Felicidade, tomaram a estrada dos Prazeres e chegaram ao capão de Meu Bem que fica nos cerros da Venezuela. Foi lá que Macunaíma imperou sobre os matos misteriosos, enquanto Ci comandava nos assaltos as mulheres empunhando txaras de três pontas.
Aqui um parêntese para citar o papel do cinema novo, uma tentativa de retomada da temática modernista, agora nos termos da linguagem cinematográfica. A personagem da amazona, Ci, a icamiaba, é apropriada pelo Diretor do filme Macunaíma (1969) para assumir o papel de uma guerrilheira, pois à época corria solta a violência da Ditadura militar burguesa contra a resistência democrática e de esquerda.
A família Macunaíma fez do capão do Meu Bem sua nova morada e permaneceu por lá durante muito tempo. Ci sempre fogosa não dava descanso ao nosso herói que, cansado, sempre dizia: ai! que preguiça! Após seis meses, a Mãe do Mato pariu um filho encarnado. Mulatas vieram da Bahia, Recife, RN, PB e deram pra Mãe do Mato um lançarote rubro cor de mal, porque agora ela era mestra do cordão encarnado em todos os Pastoris de Natal.
O pequerrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri: cresce depressa, meu filho, pra você ir ganhar dinheiro em S. Paulo.
Uma noite, enquanto Ci dormia, Cobra Preta chupou o peito dela, e no dia seguinte o curumim ao mamar o peito da mãe, deu um suspiro e morreu.
Após as cerimônias da aldeia, botaram o anjinho numa igaçaba (pote de barro) e o enterraram no centro da Taba (aldeia). Ainda enfeitada, Ci tirou do colar uma muiraquitã famosa, deu-a para o companheiro e subiu pro céu por um cipó e lá virou uma estrela, a Beta do Centauro.
A narrativa de Macunaíma é simples, direta, com expressões muito populares, como, por exemplo: cresce depressa, meu filho, pra ir ganhar dinheiro em S. Paulo; ou então: me acuda gente sinão eu mato! Esse linguajar, essa forma de falar do homem comum, o universo cotidiano dessa gente, é uma das características da literatura modernista.
Não sei se a primeira expressão foi uma invenção do autor, ou se ele simplesmente a utilizou por ela ser uma forma folclórica de os paulistanos explicarem a cabeça chata de alguns nordestinos. Essa expressão, no entanto, chateou por muito tempo nossos irmãos do nordeste, pois era tida, por eles, como uma forma de preconceito. A macrocefalia de alguns nordestinos já havia chamado à atenção do sociólogo Gilberto Freire que, um dia, se propôs a pesquisar essa característica muito comum aos hotentotes africanos. Mas, infelizmente, o projeto não foi levado adiante.
Outra característica de Macunaíma bastante ressaltada pelo autor é a preguiça. O herói está sempre se esgueirando dos trabalhos, repetindo comumente seu refrão preferido: ai! que preguiça! Essa indolência atribuída aos povos dos trópicos pela cultura dominante estrangeira não passa de folclore. Para os colonizadores, o calor tropical deixava as pessoas indolentes. Outra explicação para a aparente indolência estaria relacionada com aspectos raciais.
A explicação, como sabemos, está ligada ao modo de produção desses povos. No caso dos índios, a comuna primitiva, onde não há valor de troca, mercadoria, mas, apenas valores de uso. Não há, pois, a necessidade da acumulação de bens. Nesse tipo de comuna vale apenas o que dizia Manoel Bandeira: na hora de dormir, dormir; na hora de comer, comer; na hora de trabalhar, pernas pro ar que ninguém é de ferro!
Quanto ao modo de produção pré-capitalista brasileiro, o que prevalece é o ruralismo em toda sua expressão: economia de subsistência e o lentíssimo desenvolvimento das forças produtivas. Não é uma questão de saúde, de má alimentação, como pensava Monteiro Lobato. Aliás, no livro, Macunaíma repete muitas vezes o refrão de Lobato: pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são!
O livro Macunaíma está repleto de pequenas aventuras, historinhas picadas do herói, à semelhança das peripécias de Ulysses na Odisseia de Homero. Lá como aqui, a razão de ser dessas personagens é a própria aventura e, talvez, como disse Homero, desígnios dos deuses para que não falte assunto aos vates aqui na Terra!
Capei Luna e a bela Naipi: Macunaíma, em sua trajetória pela mata, ouve de uma cachoeira sua triste história. Ela fora um dia uma bela jovem, mas agora jazia encantada pelas artes maldosas de Capei, uma boiúna que habitava em sua gruta. Macunaíma lança um desafio de morte à boiúna. Trava-se, então, uma grande luta que termina com a morte da sucuri. Macunaíma corta-lhe a cabeça fora. A cabeça de Capei, a boiúna, pediu, então, para Iandu (aranha caranguejeira) ajuda para subir ao céu. Iandu teceu um fio que o vento levantava enquanto a boiúna subia, engolindo-o. A lua, na realidade, é a cabeça da boiúna que cresceu de tanto comer teia de aranha.
Eis aí mais uma lenda sobre a origem das coisas. Mas, na fuga, Macunaíma perdera seu talismã da sorte, sua muiraquitã. Passaram-se os dias e Macunaíma sentia-se infeliz por não achar mais o seu talismã. Foi então que o Neguinho do Pastoreio, para quem Macunaíma rezava diariamente, sentindo pena do herói, enviou um uirapuru para lhe dizer onde estava a muiraquitã.
A pedra havia sido achada, por alguém, no estômago de um jabuti, e vendida a um colecionador de S. Paulo, chamado Venceslau Pietro Pietra. Macunaíma e seus dois irmãos se despedem do lugar e rumam para o sudeste. Antes, porém, ele deixa sua consciência pendurada no alto de um mandacaru (para saúva não comer), na ilha de Marapatá, junto à foz do rio Negro.
Rumo a São Paulo: Macunaíma navegava o rio Araguaia com várias barcaças de cacau (riqueza amazônica - daí o termo cacau como sinônimo de dinheiro) quando notou um rastro deixado por um pé humano numa pedra localizada no meio do rio. O herói parou e foi tomar banho no pequeno lago que se formara dentro do rastro. Após tomar banho, Macunaíma se transformou num homem branco, aloirado, de bela figura. Jiguê, o moço, mais que depressa saltou dentro da poça-d´água, porém ele ficou apenas avermelhado, uma vez que a água já havia sido turvada pelo banho de Macunaíma. Maanape, o idoso, apenas conseguiu molhar a palma das mãos e a sola dos pés, que ficaram brancos.
Segundo a lenda, a marca do pé deixada na pedra do rio era de Somé ou Zomé, o Pé Grande, um branco enigmático que havia passado pelo Brasil, antes do Descobrimento. Esse branco viera catequizar os índios que, porém, o repeliram, expulsando-o do Brasil debaixo de flechas. Pé Grande caminhou, então, pelas águas até a Índia, e nunca mais se ouviu falar dele.
Outra lenda indígena que o autor se vale para introduzir o herói à sociedade de classes, urbana e predominantemente de brancos. Aqui duas ideias: a primeira está relacionada com a origem das raças (povos): o negro, o índio (avermelhado) e o branco; a segunda diz respeito às facilidades que um branco teria para se inteirar das coisas, para obter ajuda e ter acesso às instituições, pois como negro, ele teria de enfrentar o racismo, o preconceito de uma sociedade de classes. Há também um simbolismo no ato de Macunaíma deixar sua consciência em sua terra. Agora ele teria de aprender a agir como branco se quiser obter sucesso em sua empreitada. Como se diz popularmente: na terra de sapo, de cócoras com ele!
E aqui começa a segunda parte do livro, onde o autor contrapõe à comuna primitiva da caça e da pesca à sociedade estratificada em classes sociais distintas e antagônicas, uma sociedade da técnica, ou da máquina como diz Macunaíma.
Carta às Icamiabas: Macunaíma aprendia, pouco a pouco, como viver nessa sociedade. Agora já sabia que tudo é máquina, o bonde, o elevador, o telefone. E numa carta às Icamiabas ele revela que na urbe há dois idiomas, o falado, próprio das massas, e o escrito dos moços cultos da classe dominante.
Ele cita as desigualdades sociais, descreve as residências douradas da burguesia, dona de doze mil indústrias, fala das madames, de seu gosto pelas coisas importadas etc. E ainda mencionam os ingleses e os italianos. Por oposição à situação privilegiada da classe dominante, o autor menciona a existência de um proletariado que se apinha em bondes superlotados.
A carta às Icamiabas seria a expressão literária do outro português, o idioma escrito. Macunaíma deixa transparecer, nessa carta, a maneira verborrágica do discurso dos moços cultos da classe dominante. É aí que o autor copia trechos de escritores e oradores pré-modernistas conhecidos. Quem não conhece ou conheceu algum político dado à oratória exuberante, porém arcaica? Nessa carta, o autor mostra sua preocupação pelo caráter do que é nacional, do que é nosso, contrapondo nossos bens e nossa cultura ao estrangeirismo, e ao citar o gosto burguês pelos bens importados, prenunciava a sociedade de consumo.
Chega, então, a hora de Macunaíma enfrentar Pietro Pietra que detém a posse de sua muiraquitã. O herói vai à casa do Gigante e este o mata e o corta em pedacinhos. A formiga sarará Cambgique sugou, porém, todo o sangue do herói, esparramado no chão. Maanape, irmão idoso de Macunaíma, entra no tepujar do gigante para resgatar o corpo do herói. Para tanto, ele precisa distraí-lo, oferecendo a ele e a sua mulher, uma caapora caximbeira, vinho quiânti e tabaco.
Enquanto o casal esquecia que havia mundo, Maanape recolhia os pedacinhos do herói que já estava sendo cozido numa panela com polenta, e o recompõe no chão. A formiga sarará vomita sobre o corpo o sangue de Macunaíma. Em seguida, Maanape o embala num cesto e o carrega para a pensão. Lá, o irmão, feiticeiro que é, queima folhas e sopra a fumaça sobre o corpo inerte do herói, que ganha vida novamente.
Derrotado, Macunaíma jura vingança. Pede ajuda ao irmão Jiguê para usar a máquina-telefone e xingar a mãe do Gigante. O telefone não funciona. Faz outra tentativa, porém frustrada, ao se disfarçar de francesa para conquistar o Curupira e por esse meio reaver a pedra talismã. Derrotado em seu intento, resolve ir, então, a um terreiro de macumba, no Rio de Janeiro, para fazer um trabalho contra o Curupira. Numa sessão de macumba, Macunaíma observa que havia gente de todos os estratos sociais: médicos, engenheiros, empresários, faxineiros e até ilustres figuras do modernismo, Raul Bopp, Manoel Bandeira, Ascenso Ferreira, Antônio Bento.
Dante em sua Divina Comédia colocou em um dos círculos infernais alguns políticos e até o papa. Era uma forma de vingança do poeta, perseguido que fora pela classe dominante de sua época. À semelhança de Dante, o autor de Macunaíma homenageia seus amigos e conhecidos, apresentando-os como praticantes de ritual religioso que remete a uma das matrizes culturais do nosso povo, a saber: a macumba.
Durante a sessão, uma polaca balzaquiana recebe Exu que aceita Macunaíma como seu novo afilhado. Enquanto isso os fiéis cantam: bamba querê, sai Aruê Oh! Olorung! Vamo sarava! O herói então se dirige ao Exu e diz: venho pedir pra meu pai por causa que estou muito contrariado. E então pediu que fosse dada uma surra em Pietro Pietra, o Piaimã, o Curupira. Exu ordenou: então me bata. Macunaíma surrou Exu, que estava no corpo da polaca, de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Longe, em S. Paulo, Pietro Pietra sangrava todo, urrando. A testa lhe fora quebrada pelo coice de uma mula, a barriga chifrada, o corpo todo mordido, queimado. Após a sessão, todos foram comer presunto e dançar samba de arromba.
Voltando a S. Paulo, o herói fica sabendo que Pietro Pietra tinha viajado para a Europa para descansar e se recompor da surra que havia levado.
Esta é a deixa para o autor narrar outros casos do herói e ressaltar algumas características de nossa cultura. É o caso, por exemplo, do jogo-do-bicho. Macunaíma, já quase sem dinheiro, arrisca uma centena e acerta na cabeça; das peças pregadas ao seu irmão Jiguê, quando lhe diz que viu rastros de paca em frente à Bolsa de Valores (situada ainda hoje no mesmo lugar descrito pelo autor).
Jiguê e o herói procuram o rastro dos animais, no chão, enquanto uma multidão de curiosos acorre para saber o que está acontecendo. Todos procuram os animais, em vão. Questionado sobre a existência dos animais, o herói diz: paca tatu cotia não! E vai se embora depois da molecagem.
Chega por fim o dia de acerto de contas com Piaimã. Macunaíma tão logo ficou sabendo da volta do gigante partiu para sua casa, e lá chegando foi logo entrando.
O gigante havia preparado um balanço, desses de parque de diversão infantil, e pediu para o herói se balançar. Macunaíma percebeu que havia um enorme caldeirão de macarrão fervendo um pouco à frente e abaixo do balanço.
O herói pediu ao gigante que lhe mostrasse como era balançar. O gigante então se sentou e Macunaíma o balançava, cantando: Bão-ba-lão, senhor capitão, espada na cinta ginete na mão! De repente, o herói balançou tão fortemente que o gigante caiu do cipó em direção ao caldeirão de macarrão. Enquanto descia, o gigante gritava: afasta que vos engulo! E ao cair no caldeirão e lambendo o bigode ainda teve força para dizer: falta queijo!
Com a morte do gigante, Macunaíma apanhou sua muiraquitã e foi cantando até a pensão: muiraquitã, muiraquitã de minha bela, vejo você, mas não vejo ela!
Nada mais havia o que fazer na cidade macota, situada às margens do igarapé Tietê. Partiram e quando eles atravessaram o pico do Jaraguá, Macunaíma virou-se pra trás e murmurou: pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são. Então fez um caborje (feitiçaria) e a taba gigante se transformou num bicho preguiça todinho de pedra. Seria o que é hoje a Pauliceia desvairada, uma selva de pedra! Curiosamente, Macunaíma, levou consigo um revólver Smith-Wesson e um relógio Patek Philip, objetos da moda na época, e, também, uma novidade, um casal de galináceos da raça legornes. Ou seja, ninguém sai imune da sociedade industrial, após conhecê-la. Esses bens industriais, objetos símbolos da época, mostram certa assimilação cultural do herói à sociedade capitalista.
Voltando a sua terra natal, e após viver outras tantas aventuras, eles se sentiam novamente marupiaras, que quer dizer: pessoas felizes nos negócios, na caça, na pesca e nos amores! Macunaíma cantava, botava a boca no mundo fazendo emboladas e traçados sem sentido.
Agora ele precisava recuperar sua consciência deixada na ilha de Marapatá, mas como não a encontrou, ele usou uma hispano-americana que, segundo ele, dava na mesma! E, assim, Macunaíma continuou enganando a todos, principalmente Jiguê, roubando-lhe a caça. O herói não tinha mesmo nenhum caráter.
Quando Vei, a Sol, o castigava com seu calor, Macunaíma se lembrava que era imperador do mato virgem, então gritava: Eropita boiamorebo! O tempo mudava e aparecia um bando de araras vermelhas e jandaias, papagaios, e tantos outros pássaros, para formar sombra e, assim, proteger o herói de Vei, a Sol, que queimava a pele do herói.
Em certa ocasião, Jiguê se irritou com o herói e este raivoso imaginou um anzol de dente de cobra surucucu para ferir Jiguê. O ingênuo irmão ao utilizá-lo feriu a mão. O veneno da cobra foi tomando o corpo de Jiguê até ele virar uma sombra. Jiguê jurou vingança e como sombra foi engolindo todos que ficava ao seu alcance. Foi assim que a sombra engoliu a princesa, companheira de Jiguê, o irmão Maanape, e tentou engolir o nosso herói. Macunaíma tinha muitas artimanhas conseguiu passar a doença que havia pegado de Jiguê para as formigas e outros insetos, curando-se por esse modo.
A sombra de Jiguê montou em um boi e ia devorando tudo que este encontrava para comer, até que o boi morreu de tanta fraqueza. O urubu-ruxama, o pai do urubu-rei, foi, então, devorar sua carniça. A sombra apinhou-se sobre sua cabeça e desde então o urubu-ruxama tem duas cabeças.
Há ainda a lenda de Taína-Cã, uma estrela que desceu do céu para namorar Denaquê, uma cunhã, e ensinar sua tribo Carajás o cultivo da mandioca, do milho e do fumo, cujas sementes ele trouxera do céu. Imerô, a irmã de Denaquê, e que havia sido desprezada por Taína-Cã, de tanta inveja da irmã, terminou virando araponga que vive gritando de inveja.
Essas e outras lendas são maneiras de explicar a origem das coisas, numa época em que o mundo do divino e do humano se entrelaçava. São lendas universais, próprias de uma etapa de desenvolvimento da produção social, do nível de desenvolvimento das forças produtivas.
A universalidade dos laços culturais dos homens pode ser apreciada no livro de Engels: Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Lá estão as etapas pelas quais passaram os homens em sua jornada ao longo da história. Lá estão o estado selvagem e suas fases, inferior, média e superior, e a barbárie também com suas respectivas fases, e, finalmente, a civilização.
Engels parte do trabalho do antropólogo estadunidense Lewis H. Morgan (System of Consanguinity and Affinity of the Human Family) para, então, superá-lo. As lendas são, portanto, um produto cultural da infância da humanidade.
Voltemos a Macunaíma para, então, finalizar. Após curar-se da doença que lhe fora passada por seu irmão Jiguê, o herói, ainda enfraquecido, desce de sua rede e percorre o vale de Lágrimas para tomar banho num lagoão. Lá ele vê uma linda cunhã sob o espelho d´água. Atraído pela Uiara (Iara, deusa dos rios), ele mergulha e é mordido pelas piranhas, perdendo uma perna, os lábios de onde pendiam a muiraquitã, os dedos, seus cocos da Bahia, o nariz, as orelhas. Apesar de tudo isso, ele consegue se erguer e já na praia procura timbó para envenenar os peixes. Mata-os a todos e deles retira suas partes, menos a perna e a muiraquitã engolidas pelo monstro Ururau que não morre com timbó nem pau.
O herói estava desgostoso, desanimado, e como disse o autor: tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofrimento tanto heroísmo, afinal não fora senão um se deixar viver. Iria viver no céu. Iria ser o brilho bonito, mas inútil de mais uma constelação, a semelhança de seus parentes, todos eles vivendo no brilho inútil das estrelas. Iriqui, uma das cunhãs de Jiguê, já havia inclusive virado estrela nas asas das araras. É o setestrelo.
Ainda desanimado o herói subiu ao céu por meio de um cipó matamatá que havia plantado. A planta havia crescido e prendido numa ponta de Capei (a Lua). O herói subiu, por esse meio, levando consigo inclusive os objetos e a gaiola com os legornes que trouxera da cidade industrial. Capei negou-lhe asilo e por isso Macunaíma lhe deu socos no rosto. A Lua até hoje carrega manchas escuras dos socos do herói.
O herói foi ter então com Pauí-Pódole, o Pai do Mutum, a quem Macunaíma um dia ajudou na Terra. O Pai do Mutum conta para Macunaíma que no principio havia um jaboti grande que tirou de seu ventre um individuo e sua cunhã, casal que dera inicio a tribo do herói. Como não havia mais lugar junto ao Pai do Mutum, este, compadecido do herói, o transformou juntamente com tudo que ele carregava na Ursa Maior.
É por isso que a Ursa Maior tem uma perna só, porque ela é Macunaíma que banza solitário no campo vasto do céu.
Conclusão: a falta de caráter do herói, na ótica do autor, seria, ao que parece, o modo de vida dos homens na sociedade capitalista, onde todos procuram levar vantagem. Há, porém, os ingênuos, os jiguês, homens de boa vontade que estão dispostos a ajudar seus irmãos apesar da adversidade, das contradições de uma sociedade de classes. Há, ainda, o aspecto cultural das crenças, resquício que une diferentes estratos sociais. Mas, no fundamental, perdemos nossa muiraquitã, nossa identidade, não somos brasileiros, nem marupiaras, estamos muito divididos em nordestinos, sulistas, paulistas e outras coisas mais!
Ou, como disse Scharwz: A reflexão propiciada por Macunaíma parece estar na ordem do dia. Diante de um conjunto de mudanças ordenadas por uma perversa ordem global, de internacionalização da cultura e novas exigências de mercado, há uma urgência de pensar "quem somos nós" neste processo. Como falar de nossa própria vida, sociedade e cultura sem sermos tragados, tal como Macunaíma seduzido pelos encantos da Uiara, por uma "estetização consumista". Este parece ser um dos riscos para o qual o cineasta Joaquim Pedro de Andrade apontava ao dizer das perigosas ligações entre produção cultural e consumo.
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