ETANOL VERSUS ALIMENTO
A partir da leitura de artigo no jornal Hora do Povo repleto de dados e informações sobre a necessidade de consumo energético nos Estados Unidos, ocorreu-me escrever estas ligeiras notas sobre o significado da visita de Bush ao Brasil.
Os estadunidenses são hoje os responsáveis pelo maior consumo energético do mundo e responsáveis também por um quinto da emissão de gases de efeito estufa. Não é, pois, de admirar o motivo pelo qual não assinaram o protocolo de Kyoto que prevê a redução dessas emissões, ao longo da próxima década.
Essa recusa significa que eles não estão dispostos em abrir mão de seu nível de consumo e bem estar social, não se importando com as consequências futuras e desastrosas para o planeta, já previstas pelos estudiosos do assunto. O lema dessa gente é o mesmo daquele rei-sol francês: depois de mim, o dilúvio! (Après moi, le déluge)!
Os estadunidenses já são os maiores produtores de etanol, extraídos a partir do milho. O consumo desse combustível já representa 2,5% na frota automobilística do País. Há, contudo, limites para a expansão da produção naquele país, e mesmo que toda a superfície agricultável fosse tomada pelos milharais, eles não produziriam etanol suficiente para o consumo interno. O que fazer, então, diante da necessidade de aumentar substancialmente a produção de etanol?
Há duas razões para expandir para fora do país seus interesses energéticos. A primeira é a vantagem comparativa, pois enquanto o custo do etanol, a partir do milho, chega a US$ 0,47 por litro, naquele país, no Brasil, o custo do etanol, a partir da cana-de-açúcar, representa apenas US$ 0,20 por litro. Nos Estados Unidos, cada hectare de milho rende cerca de 3,2 mil litros de álcool, enquanto, no Brasil, cada hectare de cana-de-açúcar resulta em torno de 6,8 mil litros deste mesmo produto. É por isso que os Estados Unidos sobretaxam o álcool brasileiro, e eles ainda falam em livre comércio. Essa política protecionista voltada para a defesa de seus produtos agrícolas também é seguida por outros países imperialistas e defendidas por eles junto à OMC.
A segunda razão é tentativa de se eximirem, perante o mundo, da responsabilidade pela degradação do meio ambiente. Que fique com a periferia do sistema capitalista o ônus da alteração do habitat e suas consequências para a flora e a fauna do planeta.
O governo estadunidense, longe de reduzir sua frota automobilística, como sugerido pelo governo venezuelano, impõe aos demais países os interesses de seus oligopólios. Nesse sentido é que se torna compreensível a visita de Bush ao Brasil. Dito de outra forma, diante da necessidade de buscar fontes alternativas e complementares ao petróleo, o governo estadunidense tenta com sua política externa restabelecer a antiga divisão do trabalho ao nível das nações, isto é, os países menos desenvolvidos, subordinados aos interesses do imperialismo devem produzir aquilo que for mais condizente com suas próprias realidades socioeconômicas ou vocação natural (agricultura e pecuária ou atividades extrativas minerais, quando for o caso).
A divisão do trabalho ao nível das nações, a bem da verdade, não estaria superada para inúmeros países, e ela assumiu sua maior expressão com o pacto colonial: plantar cana-de-açúcar na colônia e exportar açúcar para a metrópole. A nova realidade consiste em plantar cana-de-açúcar na periferia do sistema e exportar álcool para as os centros dominantes.
Quais as consequências dessa decisão política para o Brasil? Entendo que há dois aspectos altamente nocivos: o primeiro diz respeito ao aumenta da área plantada, significando o desmatamento, a monocultura da cana-de-açúcar em prejuízo dos alimentos; o segundo está relacionado com a desnacionalização das destilarias brasileiras.
Com relação ao primeiro aspecto, imagino a substituição de culturas tradicionais, básicas ao consumo interno, e os problemas decorrentes da própria monocultura, o empobrecimento dos solos, as pragas, e a consequente desertificação, à medida que se abate a flora nativa. Outro problema gravíssimo estaria relacionado com a diminuição da oferta de produtos alimentares e o consequente aumento de seus preços, o que poderia agravar a fome no mundo, principalmente nos países menos desenvolvidos economicamente.
Quanto ao segundo aspecto, já temos notícias de um processo de desnacionalização das destilarias brasileiras, senão vejamos alguns exemplos citados no jornal Hora do Povo. Está sendo constituído, no Brasil, um fundo de investimentos de US$ 2,0 bilhões, tendo a frente um ex-presidente da Petrobrás do governo FHC, aquele mesmo que gastou milhões de reais em pesquisas para mudar o nome para Petrobrax. Segundo notícias de jornais, esse cidadão seria um representante menor dos investidores estadunidenses, tais como, Kleiner, Perkins, Caufield e Byers, que conta inclusive entre seus associados com o ex-ministro da guerra Colin Powell, aquele mesmo que comandou a invasão do Iraque.
Outros interesses estrangeiros, segundo o jornal, estão, também, tentando açambarcar o álcool no Brasil, a exemplo da francesa Louis Dreyfus que adquiriu recentemente cinco usinas brasileiras. A ADM maior produtora de etanol nos Estados Unidos já entrou no ramo do biodiesel, instalando uma fábrica em Rondonópolis, MT. A Cargil comprou a Cevasa, em São Paulo e tentou comprar as usinas do grupo Cosan. A Infinity Bio-Energy pertencente ao Fundo Kidd e Company, com participação da Merryl Lynch, já conta com três usinas e estaria adquirindo mais outras três. Da mesma forma, a Clean Energy Bio-Energy estaria adquirindo a Usaciga, no Paraná, e a Globex também já teria comprado uma usina no Brasil. O Mega investidor (que alguns chamam de mega-especulador) George Soros adquiriu a usina Monte Alegre, em Minas Gerais. E até a Pacific Ethanol, cujo sócio mais conhecido é Bill Gates, estaria tentando comprar uma usina no Brasil. O Brasil conta hoje com 350 usinas e mais 100 outras em construção.
Transformar nosso país em um imenso canavial tem algumas consequências sociais graves. Penso apenas como seria o resultado dessa nova política energética brasileira: milhares de plantadores de cana-de-açúcar submetidos à lógica de produção dos usineiros; a dependência econômica de inúmeros municípios, e a forte repercussão no comportamento político-eleitoral de seus moradores, sem mencionar o aspecto da desnacionalização da produção brasileira, agora sob a batuta de modernos coronéis alienígenas, os novos senhores-de-engenho.
Convém anotar que, ao lado do tema estritamente econômico, aqui relatado, há outros de caráter político de suma importância para os Estados Unidos, e um deles é a intenção de destruir o Mercosul por meio do aliciamento de governos latino-americanos para assinatura de acordos bilaterais. É a velha tática romana: divide et impere! Dividir os parceiros do bloco para, então, reinar, manter o domínio imperialista sobre nós. A visita de Bush tem, ainda, o propósito implícito de reafirmar velhos compromissos político e militar de alinhamento com a nação estadunidense; de transferir responsabilidade ao Brasil para influenciar e conter experiências políticas alternativas, no subcontinente americano; e, no limite, terceirizar ações de contenção armada, a exemplo do que ocorreu no Haiti. E, finalmente, reforçar os laços culturais, a ideologia da globalização, da verdade única, que é, segundo eles, a da supremacia da cultura ocidental cristã e capitalista.
solonsantos@yahoo.com.br / notassocialistas.com.br – ligeiras notas – 08/03/2007.