Crise grega e Euro

 

O EURO foi, talvez, a coroação política da União Europeia. O sonho do governo francês, de Gaulle, era colocar em xeque o lastro ouro do dólar estadunidense, pois essa moeda portava a insígnia de sua conversão em ouro, ganhando, por isso, o status de Reserva de Valor.

 

Nos anos que se seguiram a primeira Grande Guerra, o dólar ainda dividia com outras moedas fortes, particularmente a Libra inglesa, a preferência do mercado mundial. Aos poucos, porém, ela foi impondo sua hegemonia sobre as demais moedas até se consolidar como reserva de valor, conversível para todas as nações, o que veio a ocorrer após a segunda Grande Guerra mundial.

 

A tentativa do governo de Gaulle para converter dólares em ouro teve algum sucesso nos últimos anos da década de 1960. O governo Nixon (1968-74), porém, percebeu que o cofre de seu país, o Fort Knox, não teria condições de resgatar todos os papéis-moedas que para lá fossem remetidos. O congresso dos Estados Unidos sentiu-se, pois, na obrigação de votar uma Lei que anulasse a conversão em ouro dos dólares estadunidenses, frustrando, desse modo, os planos do general de Gaulle, que completou sua vida em 1970.

 

De Gaulle havia percebido que os Estados Unidos estavam imprimindo montanhas de papel-moeda, sem lastro-ouro, e enviando-os para o Exterior, principalmente para a Europa. Essa política monetária contribuiu, em grande parte, para a expansão dos negócios estadunidenses e para a consolidação de seu poder militar. Um estudioso francês afirmou em livro, na década de 1960, que as duas maiores economias do mundo eram estadunidenses, sendo que a segunda estava representada por suas empresas estabelecidas no Exterior.

 

E como eles conseguiram realizar essa mágica? Ao que parece, exportando sua inflação (dólares sem lastro) para outros países, onde compravam e criavam empresas, firmavam acordos, expandiam seu poder bélico instalando bases militares em diferentes países, chegando, nos dias atuais, a 1001 delas, em todo o mundo. O poder bélico funcionava como desestímulo a eventual contestação das nações subalternas. E no âmbito da linguagem, da ideologia que ela pode expressar, elaboraram-se novos sinais: mundo livre versus totalitarismo; democracia versus comunismo; civilização ocidental cristã versus barbárie oriental fundamentalista.

 

Recentemente (início de junho/2010) o presidente da Alemanha renunciou ao seu mandato de chefe de Estado por ter admitido publicamente a razão do envio de tropas alemãs para o Afeganistão. Segundo ele, as tropas alemãs sediadas no Exterior são uma demonstração de força e disposição para garantir os interesses econômicos de seu país, no mundo. A declaração escandalizou a população alemã, que já vinha reivindicando a retirada dos soldados daquela região.

 

Origem e natureza do capital financeiro, a gota d´água da crise atual

 

A enorme quantidade de papel-moeda sem lastro acabou gerando o fenômeno do capital financeiro especulativo. A hegemonia do capital financeiro sobre o capital produtivo é evidente. E os bancos centrais europeus e alguns asiáticos, por exemplo, sofrem enorme pressão dos Estados Unidos para reterem o excesso de dólares em suas reservas.

 

O capital financeiro expandiu-se muito com a repentina e exagerada elevação dos preços do petróleo (1973-74, 1979, 1984), propiciando a formação de grandes reservas de dólares nos países exportadores. Esses petrodólares, em alguns casos, riqueza pessoal de reis e xeiques muçulmanos, não foram aplicados em desenvolvimento industrial, tendo em vista o bem-estar de suas populações, mas guardados junto aos bancos europeus.

 

A própria Venezuela, embora não guardasse seus recursos em bancos, gastava-os totalmente com importações de bens de consumo, inclusive alimentos. Somente agora, com o advento do governo Chávez, nota-se a urgente preocupação com o desenvolvimento e o bem estar de seu povo.    

 

Outras fontes do capital financeiro estão relacionadas com a constituição de fundos de pensão, e a multiplicação de companhias seguradoras. Esses recursos, por sua natureza, não são, geralmente, aplicados como capital de risco, isto é, em empreendimentos da produção industrial ou de serviços de retorno incerto e quase sempre em médio ou longo prazo. Esses recursos, e em grande parte os petrodólares, foram e são aplicados em títulos da dívida pública de inúmeros governos deficitários, principalmente os menos desenvolvidos economicamente. É o que veremos mais adiante, quando analisarmos o caso do governo grego, razão dessas ligeiras notas.

 

Quanto aos recursos dos fundos de pensão, vale lembrar que eles resultaram do processo da grande abertura comercial, da desregulamentação dos mercados, e da política de privatização de empresas e serviços públicos levada a cabo pelos governos neoliberais.

 

O neoliberalismo foi uma alternativa política da burguesia para levar adiante seu processo de reestruturação produtiva capitalista, iniciada na década de 1980. E mais do que uma política, uma necessidade do Capital, obediente à lógica de sua reprodução ampliada, e percorrendo ou concluindo, ao que parece, a última etapa do desenvolvimento capitalista.

 

Blocos econômicos e globalização dos mercados:

 

Os blocos econômicos são resultados da luta de classe elevada ao nível de nações. Eles são reservas de mercado de nações que, em seu conjunto, buscam manter um espaço vital, com independência relativa, ante outros blocos, e nações bastante competitivas. Os blocos são, também, produto do próprio desenvolvimento capitalista. Sua tendência é para a globalização, à medida que convergem em direção ao mercado mundial, derrubando barreiras e buscando vantagens comparativas em todas as latitudes do planeta.

 

No caso da União Europeia (UE), o bloco, ainda em desenvolvimento, converge para uma globalização dentro de sua própria fronteira geográfica, integrando mercado, moeda única e cidadania. Já há um parlamento europeu para 16 nações fundadoras e outras 11 associadas. Entretanto, pergunta-se qual seria a razão da crise atual para alguns membros dessa comunidade!

 

A crise decorre, entre outros fatores, da tentativa de igualar os desiguais. Alemanha, França e Inglaterra são as economias mais fortes dentro do bloco, secundadas pela Itália e Espanha. A Inglaterra, sabiamente, não adotou o EURO. A Grande fatia do mercado está em mãos dessas poucas nações, principalmente da Alemanha, ao todo são 27 nações integradas parcial ou totalmente à União Europeia.

 

As nações menos desenvolvidas, ao se abrirem para o mercado desse bloco, diminuíram sua capacidade de desenvolvimento industrial e tecnológico, perdendo competitividade para os países desenvolvidos, notadamente para a Alemanha. Os déficits (comercial e fiscal) se acumularam, e os governos passaram, então, a emitir títulos da dívida pública, remunerados com taxas de juros bastante atrativas.        

 

Mas, por que essas nações não se desenvolveram como o fizeram Inglaterra, França e Alemanha?

 

É da natureza do capitalismo o crescimento desigual. Por razões históricas, um determinado país pode se capacitar e criar as condições para uma acumulação primitiva de capital, iniciando-se, a partir daí, um processo de reorganização do espaço econômico, inicialmente, dentro de seu próprio território, com a instalação de uma nova forma de divisão do trabalho. Secundariamente, esse país pode estender essa nova modalidade de divisão do trabalho às nações vizinhas, criando as condições de dependência para algumas delas.

 

Sirva-se de exemplo, o caso brasileiro. O capitalismo ao se concentrar no eixo Rio - São Paulo reorganizou o espaço social em seu benefício, prejudicando o desenvolvimento das demais regiões do país. O papel reservado para o nordeste, por exemplo, foi o de exportar mão de obra barata e matérias-primas subsidiadas, enquanto importava bens de consumo industrializados, gerando o mecanismo da dependência econômica, por meio de um intercâmbio desigual.

 

De igual maneira, um país desenvolvido economicamente pode criar as condições objetivas para submeter outros países vizinhos, pela via do intercâmbio comercial desigual, onde nações subdesenvolvidas importam produtos de alto valor agregado e exportam matérias-primas e insumos de baixo valor, gerando déficits constantes e a necessidade de ajuda financeira.

 

Por que nações dependentes não rompem com sua dependência econômica:

 

A dependência de uma nação em relação à outra não se dá por acaso, é um processo da luta de classe ao nível de nações, resultado do processo maior do desenvolvimento do modo de produção capitalista. Esse processo é viabilizado, também, pela luta de classe interna às nações dependentes. Não foi assim, historicamente, com Portugal, em relação à Inglaterra? O que foi o Tratado Methuen (1703) senão a abdicação, na prática, de Portugal ante a possibilidade histórica para sua industrialização!

 

Mas, como citamos acima o conceito de luta de classe, vamos, aqui, de maneira simplificada, dar uma ideia do que ela representa. Diríamos que esse conceito traduz a luta entre os diversos segmentos sociais em defesa de seus interesses de classe (econômico, político, ideológico). A luta de classe, na realidade, é o motor da História. Ela se desenvolve no dia-a-dia das contradições sociais existentes entre classes, frações de classes, grupos profissionais etc. que têm interesses políticos contrariados, perdas econômicas, desigualdade diante das oportunidades, de concorrência; disparidades regionais; conquistas sociais retiradas, direitos negados; conflitos étnicos, religiosos etc.

 

Se o Tratado de Methuen, por exemplo, teve sustentação interna em Portugal é porque alguns segmentos sociais dominantes se beneficiavam com sua vigência, notadamente produtores e comerciantes de vinho que souberam impor aos demais segmentos sociais a legitimidade de seus interesses de classe.

 

Vejamos, agora, um exemplo de luta de classe na Venezuela. Um terço dos venezuelanos se posiciona contra a mudança política ora em andamento naquele país. O governo Chávez está trabalhando pelo rompimento da dependência externa, tentando mudar a realidade política do antigo regime. Isso implica em reformas sociais, nacionalizações de empresas, deslocamento de interesses entre grupos, perda de poder de frações da classe dominante, e integração de novos atores à cena política, tais como indígenas, mestiços etc.

 

A dependência econômica, política, ideológica, e muitas vezes militar, somente tem sustentação com a divisão interna do país dependente, e a divisão só ocorre quando alguns segmentos sociais dela tiram proveito. Como diziam os romanos: Divide et impera!

 

Os blocos econômicos expressam a luta de classe elevada ao nível de nações. Um intercâmbio desigual entre nações que estão em diferentes estágios de desenvolvimento econômico pode gerar mecanismos de dependência para algumas delas, decorrendo, daí, a necessidade posterior de ajuda econômica e financeira por parte das nações mais desenvolvidas.  Essa ajuda, geralmente, está condicionada a acordos, concessões e garantias, sinais claros de domínio de uma nação sobre a outra. Entre acordos e concessões haverá certamente um item que tende a garantir o direito de impor sanções jurídicas, restrições comerciais e, por último, intervenção por parte da nação mais desenvolvida. A justiça no capitalismo não tem sido o direito do mais forte?    

                           

O CASO GREGO - ESTOPIM DA CRISE EUROPEIA

 

01. A crise capitalista atual que grassa os países centrais teve sua origem na impossibilidade de acumulação de capital com base na especulação financeira.

                              

02. O acúmulo de reservas monetárias que aumentaria sobremaneira a importância do capital financeiro e, particularmente, sua fração especulativa, resultou de alguns fatores políticos, a saber:

 

a) expansão monetária proveniente do aumento acentuado do preço do petróleo, a partir dos anos 1973-74, passando de US$ 6,00 o barril para cerca de US$ 100,00, ao longo dos vinte anos posteriores àquela data;

b) a conta petróleo conduziu inúmeros países dependentes dessa fonte de energia a déficits crescentes no balanço de pagamentos;

c) a estagflação que já se fazia presente no período acentuou-se, levando vários países à situação de quase insolvência, e em alguns casos, à moratória (Brasil, México, por exemplo);

d) A economia estadunidense conhecia, também, no período, o fenômeno da estagflação, principalmente ao longo dos anos 1980. O país perdia em competitividade tecnológica notadamente para o Japão. O governo Reagan, com arrecadação deficitária, optou pela elevação das taxas de juros (de 6% para 18%), tendo em vista a captação de recursos governamentais. Essa medida fiscal elevou substancialmente a dívida externa de inúmeros países que tomaram empréstimos junto às entidades financeiras estadunidenses;

e) A difícil situação dos governos dos países devedores contribuiu para que eles tomassem a drástica decisão de privatizar seu patrimônio público econômico e de serviços. Em outras palavras, o Estado nesses países não tinha mais condições de assumir responsabilidades tradicionais como a provisão da assistência social e a continuidade da intervenção direta na produção de bens;

f) A privatização dos bens e serviços públicos renderem bilhões de dólares aos seus beneficiários. Foram constituídas instituições financeiras a exemplo dos Fundos de Pensão, com grandes arrecadações.

g) Outro fenômeno financeiro que se expandiu enormemente foram as Companhias Seguradoras;

h) Uma boa parte dos petrodólares não se direcionou para a produção de bens e serviços. Esses recursos ficaram retidos junto aos bancos europeus e estadunidenses.

i) Os recursos dos fundos de pensão e das companhias seguradoras e de outras fontes de renda, como exemplos os aluguéis de escritórios, cobranças portuárias, estádios esportivos etc., que, por sua natureza, não se destinam às aplicações de risco de médio e longo prazos, foram todos destinados à especulação financeira.

j) Sem saber o que fazer com parcelas dos petrodólares, recursos monetários das companhias seguradoras e dos fundos de pensão e demais rendas acima mencionadas, a inteligência tecnocrata das finanças criou o mecanismo da especulação financeira, notadamente dos derivativos, causa mais imediata da atual crise capitalista. Vejamos, pois, sua dinâmica e como ela se interage com a economia real. 

 

03. Como já mencionado, se o capital financeiro não passar pela relação social de exploração da força de trabalho ele não cria valor novo. Criou-se, pois, a ilusão de se aumentar a participação relativa dos especuladores na renda do país, por meio de apostas nos derivativos.

 

04. Derivativos são transações realizadas no mercado financeiro que deverão ser liquidadas no futuro. Os preços vigentes no futuro, relacionados com essas transações financeiras, derivam dos preços dos bens (ou de outros tipos de cotação de valor) no mercado a vista. Provém daí o nome de Derivativos. Uma empresa agrícola, por exemplo, ao vender sua produção de café no mercado futuro, assegura para si um preço e se protege de uma possível queda nas cotações futuras, quando colher o produto.

 

05. Os fundos multimercados usam derivativos basicamente por três motivos: a) estratégia operacional; b) proteção (hedge); c) especulação.

 

06. Os riscos dos derivativos provêm da magnitude da alavancagem. Alavancar é investir em operações de risco. Em outras palavras, apostar em ganhos futuros, cujos valores estão muitas vezes acima do patrimônio do Fundo, e isso é possível usando os derivativos. Se as operações de um Fundo bastante alavancado forem malsucedidas, as perdas podem causar estragos consideráveis, inclusive superando o patrimônio do próprio Fundo.    

 

07. Em função do mercado dos derivativos, e para sua proteção, criaram-se outros mecanismos de mercado de seguros que foram, por sua vez, securitizados. Os bancos, a partir de determinado momento, passaram a operar com sobreestimativa de recursos virtuais. O banco inglês Barclays, por exemplo, tinha uma razão dívida/capital próprio de 63 por 1.

 

08. Uma das causas mais imediata da crise financeira, como dissemos, estaria relacionada com o gigantesco e complexo mercado de derivativos, baseado em parte em dívidas hipotecárias, mas também em vasta série de outras fontes de receitas que foram securitizadas e transformadas em commodities fantasmas (mercadorias virtuais), negociáveis e depois vendidas numa enorme variedade de formas de negócios, como exemplos os títulos negociados entre bancos.

 

09. Como esses títulos têm risco elevado, o mercado inventou, segundo os analistas, um sistema de seguros, os CDSs. Exemplo: um comprador de um bônus securitizado pode adquirir o que é de fato um contrato de seguro que o protegerá da quebra do mesmo. Diferentemente do contrato de seguro tradicional, esses contratos de crédito contra a quebra de títulos podem ser vendidos ou comprados livremente. Securitizar significa lançar um título com determinada garantia de pagamento. Securitizar as exportações, por exemplo, significa tomar crédito externo com emissão de títulos garantidos por receitas futuras de exportação.  

 

10. CDSs ou, simplesmente, swaps (credit default swaps) são mecanismos relacionados com os derivativos. Eles consistem em operações de permuta, troca de títulos entre os apostadores, tendo em vista eventuais garantias, menores riscos etc.

 

11. Segundo o BIS (bank of international settlement), os derivativos teriam se elevado, em 2009, a US$ 615 trilhões, valor equivalente a dez vezes o PIB mundial. Com a crise, os governos na maior parte do mundo, ao avalizarem o sistema financeiro (bancos, fundos de investimentos, seguradoras etc.), transferiram para o setor público as perdas do setor privado. É o caso atual de inúmeros governos europeus que, ao aumentarem sobremaneira sua dívida pública, desencadeou a crise em seus próprios estados soberanos.

 

12. A inteligência capitalista criou, também, instituições que avaliam os riscos de certos investimentos. São as Agências de Risco. O negócio dessas agências é avaliar o desempenho de economias e governos, o ritmo de crescimento e sustentação de economias, a responsabilidade fiscal dos governos e sua capacidade de honrarem seus compromissos monetários. Uma avaliação rebaixada, ditada por essas agências, pode precipitar uma corrida financeira e quebrar ou fragilizar uma instituição financeira ou até países, como está ocorrendo, atualmente, na Europa.   

 

13. A crise europeia reabre o debate sobre o poder das agências de risco. Há, contudo, suspeitas e indícios de que essas agências não são assim tão independentes em suas avaliações. Recentemente, uma comissão do senado estadunidense, liderada pelo senador Carl Levin, acusou, em nota, a S&P e a Moody`s de ter ajudado os bancos a esconder os riscos de investimentos de alguns bancos, enquanto cobravam comissões para manter sigilo.

 

14. Os escândalos das hipotecas subprime, nos Estados Unidos, vieram à tona tardiamente e as agências de risco foram, por isso, criticadas por indulgência em suas avaliações de risco. Mas, como apurou a comissão de investigação, havia relações de interesse entre agências e bancos. Agora, algumas agências estão sendo criticadas por sinalizar possíveis insolvências em países europeus, e, com isso, causando pânico aos mercados mundiais.

 

15. Outra causa de fundo para se entender a crise europeia está relacionada com a disparidade entre os níveis de desenvolvimento econômico dos países que integram àquela Comunidade. Países europeus em diferentes níveis de desenvolvimento ao se integrarem à União Europeia e adotarem o Euro como moeda única perderam mercado dentro da própria Comunidade, em razão de seu menor nível de competitividade produtiva, principalmente em relação à Alemanha. Seus governos perderam, também, autonomia para gerenciar suas próprias políticas monetárias.

 

16. Esses países ao assumirem a política de integração continental em condições de desigualdade econômica e assumirem a dívida do setor privado em decorrência da crise do sistema financeiro, criaram as condições para a geração de déficits crescentes no balanço de pagamentos. A emissão de títulos públicos para arrecadar recursos elevou a dívida pública desses países, ultrapassando, em alguns casos, o valor de seus próprios PIBs.

 

17. Os títulos públicos são negociados entre bancos da comunidade econômica europeia e até em outros países, uma vez que o capitalismo está globalizado. Quando um desses países entra em estado de calamidade financeira e, em consequência, inadimplente, a crise se espraia para toda a Comunidade. É o que ocorre, atualmente, nos países europeus.

 

18. Com a impossibilidade de alguns países honrarem suas dívidas públicas, a Comunidade Europeia, no limite de sua autoridade, acena com ajuda financeira, desde que eles se submetam a exigências drásticas de política econômica e fiscal.

 

19. A situação, porém, agravou-se tanto na Europa que até os países mais representativos da Comunidade estariam em situação difícil, e por isso se tornam reticentes quanto à ajuda financeira à Grécia. A própria Alemanha, maior economia da União Europeia, anunciou medidas de austeridade fiscal que incluem redução de empregos públicos, corte de benefícios, aumento de impostos sobre energia nuclear e bancos, tudo isso para economizar $ 80 bilhões de Euros. Essas medidas visam reduzir o déficit orçamentário que já se eleva a 5% do PIB.

 

20. Dada a gravidade da situação econômica, a Comunidade europeia, ao que parece, já teria solicitado ajuda do G-20, e o Brasil, em resposta, manifestou solidariedade.

 

21. As medidas econômicas e de caráter fiscal que estão sendo tomadas pelos governos europeus significam, em última instância, perdas para o proletariado, traduzidas em aumento de impostos, corte de salário e aposentadoria, demissões e mudanças em acordos salariais coletivos e retiradas de direitos sociais assistenciais. Significam ainda a privatização do patrimônio público e a alienação de seus recursos naturais etc.

 

22. Tais medidas têm sido contestadas pelo proletariado, atualmente, em diversos países, notadamente na Europa. A luta de classes tornou-se visível, neste raro momento de crise sistêmica e cíclica do capitalismo. As pessoas já começam a identificar seus problemas sociais com a lógica perversa do sistema capitalista. O movimento ´´ocupe Wall Street``, nos Estados Unidos, esta se espalhando para diversas capitais e cidades do mundo todo.

 

23. Há conexão entre a crise euro-estadunidense e o avanço da OTAN em direção à África, principalmente em relação à Líbia. O controle das fontes de energia petrolífera interessa à França, Itália e Alemanha e outros que buscam recursos externos para saírem da crise. Os Estados Unidos, em particular, têm interesse no controle geopolítico da Região, pois há muito tempo veem tentando estabelecer bases da OTAN naquele Continente.

 

Dados de outros países: Por ocasião da criação do EURO como moeda única do bloco, a Alemanha havia imposto algumas condições para viabilizar a criação de uma moeda única para a UE. As principais recomendações foram: I) os países do bloco não poderiam ter déficits fiscais superiores a 3% de seus respectivos PIBs; II) a dívida pública deveria ser menor do que 60% de seus respectivos PIBs.

 

Segundo alguns analistas, Portugal enfrenta atualmente um déficit público de 9,4%, segundo outros, 12% do PIB contra uma dívida de 76,6% do PIB no ano passado, enquanto a Grécia, como vimos, registra déficit de 13,6% e uma dívida de 115,1%. O déficit fiscal da Espanha está em 12% de seu PIB, sua dívida pública corresponde a 53,2% do PIB, e o desemprego se elevou a 20% de sua população economicamente ativa. E note que a Espanha é a quarta maior economia do bloco.

 

Não são apenas esses países que estão em dificuldade, o nível médio de desemprego nos países da união europeia se eleva a 10,0% de sua população ativa o que representa milhões de desempregados.

 

Outros candidatos à crise: Irlanda e Itália completariam a lista dos chamados PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha). Agora sabemos também que a Hungria será incluída nesse rol. O governo húngaro recém-eleito anunciou, no início de junho, a situação de quase insolvência do país, realidade ocultada pelo governo anterior. A própria Alemanha, a maior economia da União Europeia, acaba de anunciar medidas de austeridade fiscal que incluem redução de empregos públicos, corte de benefícios, aumento de impostos sobre energia nuclear e bancos, tudo isso para economizar $ 80 bilhões de Euros. Essas medidas visam reduzir o déficit orçamentário que já se eleva a 5% do PIB.

 

A Alemanha é um pequeno país (357 mil km2), menor do que o estado de Goiás (365 mil km2). Conta, porém, com população de 82,2 milhões habitantes e um elevado nível de desenvolvimento social. Seu PIB soma US$ 3,2 trilhões, valor duas vezes maior do que o PIB brasileiro, e suas redes ferroviária (41,8 mil km) e rodoviária (644 mil km) superam em muito as do Brasil (28,8 mil km e 96 mil km, respectivamente). A mortalidade infantil é de 3,5 por mil habitantes, enquanto a do Brasil contabiliza 21,8.

 

A crise no capitalismo é sistêmica, cíclica e, apesar dos indicadores sociais da Alemanha, ela já alcançou esse país, e agora se alastra por toda a comunidade europeia. As instituições financeiras passam por momentos difíceis, os bancos são os principais credores de papéis podres, títulos de governos falidos, e, à medida que as agências de risco levantam suspeitas de insolvência dos governos europeus, cria-se clima favorável às restrições de investimentos naquela região, podendo levar a União Europeia a um longo processo de recessão econômica.

 

Quanto à Espanha, a S&P justificou o pessimismo de seu relatório ao baixo crescimento econômico do país previsto ao longo dos anos 2010-16. A média anual estimada ficaria em torno de 0,7%, contra uma previsão anterior de 1%. Analistas consideram que a Espanha vai precisar de novos ajustes fiscais, além do plano de austeridade de 50 bilhões de euros anunciado em janeiro pelo governo, "como medidas concretas e dolorosas". Agora, eles já falam da necessidade de empréstimos desse país em torno de $ 200 bilhões de euros.

 

O endividamento de muitos Estados da união europeia aumentou bastante, após a crise financeira estadunidense de 2008, em razão do aval concedido pelos governos europeus aos especuladores financeiros que adquiriram títulos podres junto aos bancos de seus respectivos países. O aval dado pelos governos traduziu-se, na prática, na transferência das perdas privadas para o poder público, decorrendo, daí, o elevado déficit atual dos governos soberanos.

 

solonsantos@yahoo.com.br  – Ligeiras notas - 06.06.2010 - notassocialistas.com.br

Nota: Artigo do HP, de 28/04/2010 - ´´O senador democrata Carl Levin denunciou que as agências de classificação de risco dependem das gordas comissões pagas pelos bancos, que querem que elas atestem como seguros investimentos arriscados. Foi esse sistema, assinalou, que permitiu aos bancos “venderem papéis de alto risco em garrafas com rótulos de baixo risco”, e espalhando débito tóxico pelo sistema financeiro.

 

Ele comparou as relações agências–bancos como “um julgamento em que uma das partes paga o salário do juiz”. Para ele, será preciso criar uma regulamentação que evite o atual conflito de interesses, em que as agências “competem pelas comissões dos bancos” – isto e, para atender ao que os bancos querem´´.

 

“Por primeiro instilar confiança não-garantida em papéis de alto risco e depois falhar em rebaixá-los de uma maneira responsável, as agências de classificação de risco compartilham a culpa pelo dano econômico massivo que se seguiu”, acrescentou.

 

Novas acusações de fraude cometidas pelo banco Goldman Sachs foram apresentadas pela comissão do senado que investiga o colapso de Wall Street em 2008. No depoimento que os chefões do banco prestaram na última terça-feira eles foram questionados de porque venderam “centenas de milhões [de dólares]” de um derivativo – o “Timberwolf” – classificado internamente, conforme e-mails apreendidos, como “um monte de merda”.

 

Os US$ 1 bilhão do “Timberwolf” – os lixos tóxicos do Goldman sempre recebiam nomes pomposos – viraram pó em cinco meses. O escândalo da quebra do “Timber-wolf” se segue ao do fundo “Abacus”, que já custou ao banco e ao diretor Fabrice Tourre, enquadramento em processo por fraude de US$ 1,1 bilhão. Há mais a caminho, e a AIG, que fez o seguro do “Abacus”, já ameaça processar também o Goldman. Já na Europa, há denúncias de que o banco tem atuado, agora, para quebrar a Grécia. O órgão de fiscalização dos valores mobiliários da Inglaterra também abriu investigação sobre o Goldman, porque um banco inglês, o RBS, foi um dos esfolados no “Abacus”; o mesmo deverá ser feito pela Alemanha.